Cidadania não é coisa pra principiante

Eu tenho a mania de exercitar a tal de cidadania. Volta em meia estou arranjando encrenca por causa disso e daquilo. Madrugada dessas, num supermercado, encontrei duas garrafas de uísque exatamente iguais na prateleira (na “gôndola”, me corrige um publicitário que chama o Abílio Diniz de “supermercadista”) —só aquelas duas no meio de uma enorme profusão de garrafas— com minhas desculpas pela redundância. Uma delas custava pouco menos da metade da outra. Era o mesmo uísque, da mesma marca, com garrafa do mesmo tamanho, mesmo tipo (rótulo preto) etc. e tal. Eu nem estava precisando de uísque (até porque prefiro um conhaque razoável ao melhor scotch), mas devido ao preço tão baixo, decidi levar e, claro, catei a mais barata.
Tentei analisar o porquê da diferença tão grande e contentei-me com a auto-explicação de que deveria ter havido algum reajuste na última mexida do dólar e o etiquetador se esqueceu de trocar a etiqueta de uma delas. Mas eu não me esqueci do que diz a lei: paga-se o menor preço indicado, reza o Código do Consumidor, muito citado, mas nem sempre acatado. Mas eu estou sempre brigando para fazer valer meus direitos - ou o que considero meus direitos.
Não tenho o hábito de pegar sempre o produto mais barato, mas quando não tenho referências ajo assim, e por isso mesmo já levei vários esbregues da minha secretária doméstica por causa do alvejante que andei comprando, que, segundo ela, seria o responsável pelas manchas nas minhas roupas; e por causa do detergente barato, que não tira a gordura dos pratos e talheres. Mas já notei que a Rosaura só quer produtos que são anunciados na televisão.
Aliás, ela só acredita que alguma coisa aconteceu se passou na televisão. Não deu na tv não é verdade, é o que parece nortear suas crenças, baseadas na teorias de Guy Debord, que definiu a "sociedade do espetáculo". Rosaura até mudou de religião, optando por um desses pastores televisivos que, com a benevolência das autoridades, fazem proselitismo religioso nas horas mais impróprias —para ela, esse tem maior credibilidade.
Até há bem pouco tempo a Rosaura ainda teimava que o homem não tinha descido na lua - “É só fazer um desses efeitos especiais de filme de ficção”, argumenta ela -, e eu usei justamente o argumento de que tinha chegado sim, porque passara na televisão, em rede mundial, para quem não se lembra. Ela ficou quieta. O diabo é que eu quase não vejo televisão - apesar de já ter eventualmente trabalhado em emissoras de tv - daí que as minhas decisões de compra são muito mais, digamos, instintivas, impulsivas, para não dizer que se ligam diretamente aos interesses do meu bolso.
Nem tinha fila nos caixas. As moças estavam de braços cruzados, com caras amarradas - não todas, diga-se a bem da verdade -, comentando umas com as outras os atos de intrepidez que tinham assumido com o feitor - ou feitora - mais próximo (“Prá cima de mim, não! Qualé? Pode fazer isso com a Quinha, que é bobinha, mas comigo o buraco é mais embaixo”). O tom era mais ou menos esse quando me aproximei com a cestinha. Encostei-me no balcão e logo cometi o primeiro pecado: botei a garrafa de uísque em pé na esteira rolante. Levei logo um pito (“Desse jeito a garrafa pode cair e quebrar - e quem é que fica com o prejuízo, hem, hem?!”).
Nem me preocupei em responder, claro! Estou acostumado com o jeitão das moças. Às vezes fico até pensando senão existe algures um centro de treinamento onde instrutores e monitores ensinam aquele linguajar rude, muitas vezes chulo, e mal-ajambrado, aquele estilo deixa-que-eu-chuto para tratar os clientes, esses infelizes que são, no dizer dos patrões delas, “o foco dos negócios”, e que, como eu, costumam ir aos supermercados nas horas tardias da madrugada para evitar aglomerações e filas —até porque, passear em supermercado parece ser o esporte favorito do campo-grandense. Se não tem o que fazer em casa, o campo-grandense logo corre para o supermercado mais próximo, nem que seja para comprar dois pão francês.
Pensei que ela não iria falar nada sobre o preço do uísque. Ledo engano meu: ela passou a garrafa pela leitora de código de barras, parou, olhou pra mim, voltou a olhar pra etiqueta —claro que a leitora de código de barras deu o preço mais alto, né?!—, botou a garrafa de volta na esteira, cruzou os braços e chamou o segurança. Uóshinto (com essa grafia, juro!), estava escrito no crachá. Sussurrou com ele. Uóshinto pegou a garrafa, olhou meio ressabiado pra mim e foi conferir o preço na prateleira (gôndola?).
Uóshinto saiu, demorou alguns minutos e voltou com um sorriso —e com as duas garrafas nas mãos. Mostrou para ela, que deu uma piscada para ele e abriu o maior sorriso —um sorriso que dizia claramente, “dançou!, cara”. Fechou em seguida o sorriso sem deixar um esgar que fosse no canto da boca e me disse que o preço estava errado, que eu tinha que pagar o maior. Não concordei. Chama o gerente. Veio “a” gerente —bonitinha até—, e argumenta daqui, argumenta dali, diz que sim, diz que não. Não desisto —cito o já citado Código do Consumidor, que estabelecimento deve ter sempre à mão pra consulta dos fregueses.
Ela acaba capitulando diante dos meus irretorquíveis argumentos: “Então, tá bem. Desta vez passa —pode levar. Mas da próxima vai ter que pagar o preço maior —concedeu-me a magnânima gerente, com um sorriso coquete em sua face de menina. Foi a gota d’água. Venci o controle dos calmantes poderosos que tomo religiosamente para tentar segurar essa ânsia idiota de cidadania; ânsia que me faz implicar com quem não usa o pisca–pisca pra fazer conversões, com quem quer me dar balinha de troco e outros transviados.
— Quer saber?! Vou pagar o que estiver marcado, sempre. Não é desta vez, nem será da outra. É o meu direito —falei baixo mas incisivamente (até porque não sou do tipo que costuma sair gritando por aí) para que todos ouvissem.
Botei a garrafa e o resto das minhas compras numa daquelas horrorosas e frágeis sacolinhas de plástico e dei as costas pra ir embora, não sem antes dizer um irônico “muito obrigado” à moça do caixa. Na porta de saída, um cartaz supostamente bem-intencionado me garantia alguns segundos de notoriedade que prefiro nunca ter: "Sorria, você está sendo filmado". Tive vontade de apontar meu dedo médio estendido para a câmera. Mas contentei-me em analisar a tal de cidadania, algo inexistente no Brasil de hoje.
Quando penso em cidadania, penso numa frase que li grafitada num muro, em tempos de campanha eleitoral: Cidadão, não deixe de votar – a corrupção precisa de você. Na verdade, tem horas em que penso que cidadão, neste país em que há tão pouca cidadania, passou a significar apenas cidade grande. Portanto, cidadão, nunca pergunte o que o país pode (e deve) fazer por você —pague o IPTU, o ICMS, o Imposto de Renda, a taxa de iluminação, o chaveiro do parquímetro para poder deixar seu carro na rua e toda aquela chusma de impostos e taxas, e vê se não enche o saco. Cidadania não é coisa pra principiante.
Luca Maribondo


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