Carta ao deputado federal Roberto Freire

Defendo o direito e a liberdade que tem de manifestar-se contra o que considera errado no PT e no governo Dilma. É um direito de indiscutível valia democrática. Infelizmente, a mais-valia da crua dialética em que nos formamos me remete a uma profunda e inevitável decepção - a decepção de vê-lo, perfilado e na linha de frente no pelotão torquemadiano e fascista de fuzilamento montado contra um governo legítimo e democrático.

Fomos camaradas, nobre deputado; admirava-o pela fluência e pelo desassombro na defesa do socialismo democrático e nacional; não imaginava um dia, ainda que escorado na previsão constitucional e juridicamente consolidada do "impeachment", encontrar-me com um Roberto Freire no cordão atávico de fascistas, misóginos, entreguistas, arrivistas e oportunistas. É o festival da ética seletiva.

Não considero golpe o impeachment, instituto constitucional consagrado. Não aprovo várias medidas governamentais das gestões Lula e Dilma. Sou contra o pacote fiscal. Mas nem por isso deixarei de lado o bom-senso de que o interesse democrático e da soberania está acima dos interesses episódicos, oportunistas, nitidamente a serviço de uma causa que não é a democracia, não é a liberdade, não é o Brasil.

Que respondam todos à História - ela é implacável. Dilma, Lula, Josés e Marias, de A a Z, ninguém é inimputável. Mas sem a legalidade democrática, e varridos pela onda direcionada da Justiça, da grande imprensa (grande?) e do próprio MP, corremos o risco de virar reféns dos que matam o boi esperando eliminar o carrapato.

Não mergulho no lago maniqueísta do bem contra o mal. Mas esperava vê-lo, caro deputado e camarada (ou ex-camarada), bradando com igual ímpeto pela investigação e consequente punição de Eduardo Cunha, Aécio Neves, José Agripino e tantos quantos - inclusive do PPS - foram postos sob, no mínimo, o peso da suspeição. Afinal, no Brasil inquisitório, ter seu nome numa lista de doações empresariais de campanha ou citado por delatores ansiosos pelo prêmio do esvaziamento da pena equivale a cair na vala comum dos sentenciados moral, criminal, política e socialmente antes mesmo de ser submetido a julgamento ou ao menos ser declarado réu ou indiciado.

Espero que me perdoe, deputado Roberto Freire. Mas o meu coração e o de muitos companheiros e camaradas de lutas históricas estão sangrando diante do que para nós era, antes, inimaginável.

Um abraço, Deus o abençoe e o conduza em suas caminhadas. Democracia Sempre! Liberdade Sempre! Estado de Direito Democrático Sempre!
Em 27-03-2016
Atenciosa e democraticamente, 

Edson Moraes

Edson Moraes

 Jornalista, poeta e apaixonado pela arte de escrever.