De onde surgem os heróis – Parte 1

De repente, os pacatos cidadãos daquele lugar; bom, talvez não tão acomodados assim, são surpreendidos com uma bomba que cai exatamente em cima de uma ínfima parcela daquela sociedade que vive há um bom tempo, encoberta como um todo pela fumaça que se esparrama e dá boas vindas a quem chega naquele ambiente.

Desavisados, alguns forasteiros poderiam dizer que descobriram novas espécies da flora, que trazem consigo desde tenra semente, uma pequena mas visível camada alva em suas folhas, a lhes dar um ar de paisagem tal qual um planeta estéril e seco, muito seco. “– Que estranha essa maneira de se dar boas-vindas a alguém!” – dizem uns. Outros se surpreendem já há algumas léguas de distância, quando percebem que as precárias e impraticáveis estradas, paradoxalmente os levam ao destino por eles planejado. O termo “do inferno ao céu” estava sendo vivenciado naquele momento?

Seria aquele lugar o que muitos já chamaram de paraíso? Seria mais uma lenda, de áureos tempos remotos ou realmente há algo que valha a pena naquele povoado? Muitas perguntas... Respostas diferentes a partir de cada olhar, cada percepção... A leitura que o indivíduo apresenta, traz consigo a variedade de pensamento e sensibilidade, arraigadas em concepções, ou preconcepções.

Me diga, você se sentiria acolhido em um local dito “paradisíaco” que te recepcionasse com uma gigantesca nuvem branca, como que te afogando e levando junto toda a fauna e flora daquele ambiente?

Esta pequena Disneylândia “ecológica”, tem seu campo de pouso, ou modernamente, aeroporto. Pequeno, porém, encantador. Com aquela rusticidade em suas linhas arquitetônicas que te conectam logo de cara com a natureza em estado bruto que, com certeza, é o que você veio buscar.

E realmente, é em estado bruto que a via que liga o aeroporto ao centro do povoado, está. Verbo Ser no tempo verbal “infinito”, que acabei de criar. Talvez porque infinito seja o tempo que alguém ou alguns vão utilizar para continuar a “empurrar com a barriga” e sem um mínimo de bom senso, a execução da obra mais do que necessária, - uma entre outras tantas - evidenciando novamente, a cegueira que misteriosamente toma conta de boa parte dos olhares de quem habita a cidade.

Há que se evidenciar essa condição problemática do caminho por onde os aventureiros passam para chegar à cidade, porque seria evidente que o zelo, cuidado, esmero, dedicação e transparência deveriam ser as palavras mais utilizadas na prática diária de convivência harmônica entre os seres do lugar, deste e de todos os outros, onde há a coletividade. O descaso no acesso caracteriza o todo, evidencia o abandono. E mais, levanta a suspeita de que tudo não passa de um conto de fadas, cujo enredo já não engana nem as almas mais ingênuas.

Mesmo assim, há os corajosos desbravadores, que ousam atravessar a cortina de fumaça, que arriscam seus meios de transporte porque acreditam piamente que esse lugarejo é um oásis, um refrigério, um alento. E desta maneira, não há nada que os impeça de atravessar todo e qualquer tipo de obstáculo; não será uma “fumacinha branca “à toa que os impedirá de alcançar o tão sonhado paraíso ecológico, incensado por muitos. Tornam-se cidadãos. Apaixonam-se perdidamente. Caem de amores. Rendem-se aos encantos do lugar. Baixam as armas. Encaixam-se no sistema. Perdem a noção da realidade. E é aí que mora o perigo....

De volta ao início, do dia pra noite, pequena parcela de incautos do lugar, recebem uma notícia bomba: seus pequenos pedaços de paraíso estão ameaçados! Sem conseguir entender qual o mal que fizeram para serem acuados, ficam estarrecidos com a possibilidade de serem retirados de seu ambiente ao menor sinal de descontentamento, seu lugar escolhido para permanecerem até o final da vida, o “céu na Terra”, por eles adorado, cuidado, preservado, conservado. Não medindo esforços para deixar seu espaço íntegro para as gerações vindouras apreciarem a obra divina traduzida em verde vivo, em água cristalina, em plenitude de bons sentimentos.

Essas pessoas então, vão buscar explicações fora de suas terras, trocando informações com figuras que lhes eram praticamente desconhecidas e aí vem a primeira surpresa: estes desconhecidos também se mostravam aborrecidos com a injustiça que estava por acontecer. E assim, supreendentemente, eis que uma força sobrenatural, uma energia maravilhosa, como um ímã, faz com que mais e mais seres de claridade única, se unam em um mesmo ideal. Acreditando todos que a escuridão serve somente para dar mais pujança à luz, que o ideal no Bem tem sua virtude soberana acima de todas as coisas e que é preciso serenar os corações alheios através da Verdade.

Unidos neste mesmo propósito, estes seres, antes simplórios, descortinaram fatos que estavam obscurecidos com o passar do tempo. Apresentaram ocorrências tão mais urgentes e com uma necessidade ímpar de resolução imediata, que os moradores do povoado começaram a se questionar. Qual o peso e a medida de cada coisa nesse mundo? Como é que o véu consegue dissimular os verdadeiros interesses que estão por trás de decisões arbitrárias? Em que lugar na mente humana, se constrói a vilania, que veste a máscara do bom-mocismo? A urgência maior é a de preservar o que já é preservado por natureza ou de mascarar, ocultar, encobrir, disfarçar os notórios problemas graves aventados para que, o número de aventureiros de outras paragens venham e continuem a se deliciar com as paisagens modificadas, com a fauna devidamente domesticada, entre outras barbaridades?

O povo deste lugarejo adorável, porém até então, fantasioso, se deu conta que estava sendo habilmente manipulado, tal qual perfeitos marionetes à frente de uma encenação cômica, se não fosse trágica. Dormiram todos o sono agitado dos descontentes; acordaram, em sua grande maioria, senhores das suas faculdades mentais, sociais, psicológicas, agora já não mais subjugadas pelo terrorismo velado, imposto em meio a falsos sorrisos, promessas vazias e muita, mas muita covardia.

Luciana Brandalize

                                              https://www.facebook.com/jornaldacidadeonline

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Luciana Brandalize

Articulista e redatora que transforma sentimentos em palavras.