Sexismo e Espiritismo

20/05/2016 às 18:47

Nicola Thorp, uma britânica de 27 anos, foi contratada em regime temporário na empresa PWC, e seus empregadores disseram que ela teria de usar sapatos com salto de “5 a 10 centímetros” de altura. Durante o período de estágio, Nicola se recusou a usar salto e reclamou que os funcionários masculinos não tinham obrigações equivalentes. Além do fator extenuante, é uma questão de sexismo, afirmou. Resultado: foi demitida. Thorp disse que a empresa deveria refletir melhor a sociedade moderna, pois hoje em dia as mulheres podem ser elegantes e formais e usar sapatos sem salto. Na opinião de Frances O’Grady, secretária-geral da União de Sindicatos da Grã-Bretanha, TUC, um código de vestimenta que exige saltos altos “cheira a sexismo”.[1]

O Sexismo é um neologismo oriundo do termo inglês sexism, que se refere ao conjunto de ações e ideias que privilegiam determinado gênero ou orientação sexual em detrimento de outro gênero (ou orientação sexual). De maneira geral, o termo é usado como exclusão ou rebaixamento do gênero feminino. Trata de uma posição que pode ser praticada tanto por homens quanto por mulheres, portanto, o sexismo está presente intragêneros tanto quanto intergêneros.

Para a Psicologia, o sexismo é um ideário, construído social, cultural e politicamente, em que um gênero ou orientação sexual tenta se sobrepor ao outro. Em relação ao preconceito contra mulheres, diferencia-se do machismo por ser mais consciente e pretensamente racionalizado, ao passo que o machismo é muitas vezes um comportamento de imitação social. O sexismo muitas vezes está ligado à misoginia, que por sua vez, sendo uma palavra que vem da junção de duas palavras gregas, miseó e gyné (ódio e mulher, simultaneamente), se enquadra para designar o desprezo ou ódio pelo gênero feminino e pela feminilidade, ou seja, as características ligadas às mulheres. Está diretamente relacionada à violência contra a mulher, seja de forma física, verbal ou discriminatória, e possui como antônimo a filoginia que é o apreço e admiração pelas mulheres, e pode, em alguns casos, ser considerada como um preconceito benevolente.

É verdade! Há pessoas que promovem atitudes sexistas contra seu próprio gênero. A forma como a cultura age no imaginário coletivo permite que seja possível encontrar mulheres que defendam que “lugar de mulher é na cozinha”, ou homens afirmando que “marido que não procura trabalho é vagabundo”, assim como há mulheres e homens que se contrapõem a tais ideários, indistintamente. Apesar das discussões políticas, midiáticas e acadêmicas sobre igualdade de gênero travadas nas últimas décadas, muitas ideias sexistas ainda permeiam a cultura brasileira e explicam parte das diferenças sociais, econômicas, ocupacionais e comportamentais entre os gêneros.

Notemos as convenções das seguintes frases: “homem não chora, porém mulher é sentimento”; “homem é livre, porém mulher é dependente”; “homem é provedor, porém mulher é provida”; “homem é cérebro, razão, mas mulher é coração, emoção”; “homem é força, porém mulher é lágrima”; “homem é herói, contudo mulher é mártir”; “homem pensa, todavia mulher sonha”; ou frases mais poéticas como: “homem é oceano, porém mulher é lago”; “ homem é águia, e voa, mas mulher é rouxinol, e canta”; “ homem domina o espaço, contudo mulher conquista a alma”, “homem tem consciência, no entanto mulher tem esperança”.

Observemos nas frases acima que a poesia de Vitor Hugo está representada. Alcança-se que há aí profunda associação à masculinidade fincada ao poder, saber e força. E que tudo o que se refere à mulher assinala-se pela fraqueza, subordinação e inferioridade. Aparentemente, contrastes sexistas nesses moldes igualam homem e mulher, mas vistos com olhos críticos eles perpetram o desrespeito às diferenças, cravam a desigualdade entre os sexos e imprimem a injustiça nas relações entre homem e mulher.

A sociedade institui, regulariza e nutre papéis sociais identificados com os sexos e reveste as crianças nesse ideário como numa camisas-de-força. Estas não são abrigadas pelo que elas são, mas pelo que o adulto quer que elas sejam. Daí a prática sexista, desde a infância. Menino marcha com o pai, joga com o professor e associa-se a grupos de meninos. Menina vive com a mãe, brinca com a professora e convive com meninas. Menino é conquistador, menina é chorona. Menino pega peso, menina lava prato. Menino tem carrinho, menina ganha boneca. Bota é para menino, menina usa sandália. Brinco e cabelo comprido são para ela, eles usam cabelo curto e usam armas para brincar. Aí está: chegamos à raiz da violência, monopólio do homem, que vitimiza a ambos. [2]

Se programas de educação não sexista forem implementados na Terra, avançaremos muito para que as diferenças entre homem e mulher não se transformem em desigualdades e em injustiças. Os Benfeitores Espirituais, na época da Codificação, também denunciaram o sexismo, racismo, pena de morte, escravidão e qualquer outra forma de injustiça social e preconceito como sendo contrários às Leis Divinas, e recomendavam liberdade de pensamento, liberdade de consciência, igualdade de tolerância. Observemos que Kardec arguiu os Espíritos se são iguais perante Deus o homem e a mulher e têm os mesmos direitos. Os Mentores afirmaram que Deus outorgou a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir. O Codificador persistiu com os seres do além sobre a origem da desqualificação moral da mulher em alguns países. Os Espíritos elucidaram que era do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem. É resultado do abuso da força sobre a fraqueza. Entre homens moralmente pouco adiantados, a força faz o direito. [3]

Apostilando ainda sobre o tema, o Codificador questionou sobre a razão da mulher ser mais frágil que a do homem, e foi aclarado pelos Benfeitores que justificaram que tal situação é para determinar funções especiais. Para o homem, por ser o mais forte, os trabalhos rudes; para a mulher, os trabalhos leves; para ambos o dever de se ajudarem mutuamente a suportar as provas de uma vida cheia de amargor. O professor lionês ainda cogitou se a fraqueza física da mulher a colocaria naturalmente sob a dependência do homem. Os Espíritos exemplificaram que Deus a uns deu a força, para protegerem o fraco e não para o escravizarem. O Criador apropriou a organização de cada ser às funções que lhe cumpre desempenhar. Tendo dado à mulher menor força física, deu-lhe ao mesmo tempo maior sensibilidade em relação com a delicadeza das funções maternais e com a fraqueza dos seres confiados aos seus cuidados. [4]

Ora, as funções a que a mulher é destinada pela Natureza tem importância tão grande quanto as deferidas ao homem, e maior até. É ela quem lhe dá as primeiras noções da vida. Kardec garantiu que uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher. Os Espíritos reforçaram que para ser equitativa, a lei humana deve realmente consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher, porém não das funções. Preciso é que cada um esteja no lugar que lhe compete. Ocupe-se do exterior o homem e do interior a mulher, cada um de acordo com a sua aptidão. Os sexos, além disso, só existem na organização física. Visto que os Espíritos podem encarnar num e noutro, sob esse aspecto nenhuma diferença há entre eles. Devem, por conseguinte, gozar dos mesmos direitos. [5]

Jorge Hessen

Referências bibliográficas:

[1]            Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/geral/2016/05/160512_salto_alto_polemica_fn acesso 15/05/2016

[2]            Disponível em https://www.emaze.com/@ALWCTWI/Revolução-Feminina acesso 16/05/2016

[3]            Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, perg. 817 e 818

[4]            Idem perg. 819 e 820

[5]            Idem perg. 821 e 822

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