O espetaculoso mundo dos devassos

21/09/2016 às 09:42

A Operação Lava-Jato é uma revolução. Não apenas por seus métodos, pelo esmero jurídico de seus atores ou pelas decisões gravíssimas referendadas quase à totalidade pelas instâncias superiores. Não é uma revolução apenas por bombardear a corrupção como instrumento de gestão e quebrar as pernas dos corruptos de colarinho-branco, autoproclamados seres lendários e inatingíveis. A verdadeira revolução deu-se quando o grupo de operadores da força-tarefa de Curitiba acertou em cheio a hipocrisia e a devassidão do crème de la crème das instituições brasileiras, os famigerados mandachuvas, agora exibidos ao respeitável público como nauseabundos morangos mofados, moídos e triturados.

Eis que um grande jornal brasileiro alardeia o coro de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, sem citar santos nomes em vão: “Em conversas internas, os magistrados criticaram a apresentação da denúncia feita pelo procurador Deltan Dellagnol, entre outros, contra Lula. Consideraram o comportamento dos investigadores espetaculoso”. Num tempo quando comer placenta é considerado razoável, denunciar políticos criminosos soa insensato, destemperado, “espetaculoso”. Especialmente quando o espetáculo é reservado aos privilegiados, numa espécie de orgia protocolar. Senão, vejamos...

Numa maracutaia, costurada em gabinetes, o então presidente do STF e um punhado de senadores da República decidiram esquartejar o Parágrafo Único do Artigo 52 da Constituição para garantir impunidade à ré, ainda que seu mandato presidencial tenha sido cassado à luz da constatação do cometimento de crimes de responsabilidade. Restou à História — não raro, humilhantes linhas — contar que a decisão soberana de uma súcia de celerados foi, comprovados delito e dolo, cometer crime de maior envergadura ao transmutar aquilo que é justo numa versão corporativa de seus umbigos imundos. Perdoem-me os doutos jurisconsultos de atacado e varejo, mas a Justiça não tem heterônimos.

O que acontece na semana seguinte? Novamente com a História nos calcanhares a narrar nosso bizarro tempo, o cidadão brasileiro assiste ao rito de posse da nova presidente do STF, cujo solene protocolo foi utilizado como argumento para que investigados e indiciados pela execução do maior esquema de corrupção já visto numa democracia ocidental pudessem desfilar ao longo de um tapete vermelho e sentar na confortável arquibancada do egrégio circo para ouvir belos e inflamados discursos sobre a desgraçada corrupção. Não é um cômico paradoxo. É a pintura íntima das nossas instituições. É a exibição de coragem suficiente para ser hipócrita em demasia. Noutras palavras, rifão indisputável, é falta de vergonha na cara.

Não espanta, portanto, que a solenidade de posse num dos Três Poderes tenha sido coroada com o mais célebre e olímpico dos foratemistas entoando o Hino Nacional justamente para o dito presidente-golpista empossado noutro Poder. É possível que exista, debaixo dos caracóis, algo capaz de dar liga às fingidas virtudes dessa gente. Convenhamos, são muitos golpes para tão pouca Res publica.

De tão mal-acostumados que estamos com a desvergonha e o descalabro como métodos institucionais, o contundente prólogo do Ministério Público Federal no Paraná, ao oferecer denúncia à Justiça contra o “maestro” pelos crimes corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, acabou promovendo a ira dos moranguinhos da política, da academia, da intelectualidade e do botequim. Como um grupo tão jovem de operadores do Direito, que ainda não aderiu à moda planaltina do castanho acaju 5.5, ousa ligar o ventilador da realidade e despentear as melenas de tão seletas e solenes autoridades da vida pública brasileira?

A reação foi imediata, cristalizada na conclusão do “comandante máximo” de que “a profissão mais honesta é a do político, por mais ladrão que ele seja”; e que a grande mazela brasileira é funcionário público efetivo, tal qual seus algozes, que “faz uma faculdade, passa num concurso e está com um emprego garantido para o resto da vida”. Estarrecedora (i)moral da história: neste tempo sombrio do Brasil, mais vale um passista de quadrilha do que uma cobra criada.

Cobras já condenaram 106 corruptos a penas que, quando somadas, alcançam quase 1.150 anos de xilindró para um único braço do esquema que saqueou R$ 6,2 bilhões da Petrobras e causou aos cofres públicos um prejuízo estimado em R$ 42 bilhões, enquanto quadrilheiros querem continuar dançando o anarriê dos morangos nos salões palacianos, sem que ninguém seja investigado, quiçá punido. Espetáculo maior não há!

A propósito, é emblemático que eminentes juízes trajando esvoaçantes capas pretas e exigindo a alcunha de “ministros” apontem suas línguas — tradicionalmente garantidoras da impunidade — para legítimos operadores da Lei, acusando-os pelo espetáculo do mérito e da Justiça. Afinal, espetaculoso deve ser apenas o mundinho dos nossos devassos.

HELDER CALDEIRA, Escritor.

www.heldercaldeira.com.brhelder@heldercaldeira.com.br

*Autor dos livros “Águas Turvas”, “O Eco”, “Pareidolia Política”, entre outras obras.

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