Ladrões de figurinhas

Como em diversos outros lugares do planeta, está cada vez mais explicita a roubalheira neste país. Dizem que a ladroagem brasileira é uma antiga e triste herança colonial deixada pelos portugueses. Talvez, por isso, exista no Brasil bem enraizada a promiscuidade entre o público e o privado. Ou, numa linguagem popular, é o particular, político ou “civil”, passando a mão no dinheiro público, aquele sofridamente pago pelo suor nosso em forma de impostos.

Isso ficou tão banal que político que rouba o erário público é tido como esperto e goza de declarada impunidade. Basta ligar a televisão ou ler um jornal, e ser inundado por esta podridão. Por isso penso que as cadeias neste país tropical deveriam ser medidas não por metro e sim por quilômetro quadrado.

Volto agora para um caso ocorrido em 2010, mas que não foi uma roubalheira de políticos. Revendo a minha vasta coleção de álbuns de figurinhas, alguns desde meados do século passado, imaginei qual seria o seu valor. Os colecionadores juntam compulsivamente objetos de sua predileção, que para eles valem mais que dinheiro e não têm preço. Entretanto, isso também começa a atrair os “amigos do alheio”.

Não é que um grupo de 5 homens armados invadiu uma empresa distribuidora de revistas e roubou um lote de 135 mil figurinhas da Copa do Mundo de Futebol, que ocorria na época, dispostas em 135 caixas. Parecia uma brincadeira no país da piada pronta. Até o delegado que atendeu a ocorrência inusitada também achou uma loucura. No entanto, para colecionadores tratava-se, como toda a certeza, de um verdadeiro tesouro. A confusão ocorreu no município de Santo André, na Grande São Paulo e algumas figurinhas foram logo recuperadas em uma favela da região.

Essas figurinhas surrupiadas provocaram uma verdadeira febre nos colecionadores da 1ª, 2ª e 3ª idades e em todas partes do país. Deviam completar o álbum oficial de jogadores da capa de 2010, produzidas pela editora multinacional Panini, que detém o monopólio mundial desse comércio.

Na copa de 2006, quando eu estive em Toronto, Canadá, visitando o meu filho, entrei numa loja especializada em venda de cards e lá estavam elas, imponentes, as figurinhas das seleções de futebol e seus respectivos álbuns. Segundo o vendedor, era o grande sucesso do momento entre os canadenses. Ao retornar ao Brasil, em São Paulo, presenciei o meu sobrinho colando as referidas figurinhas num álbum que, para a minha surpresa, era idêntico ao que vi no Canadá. Depois, chegando a Campo Grande (MS), vi o “dito cujo” sendo vendido na minha banca predileta. Com certeza, era a globalização de um negócio que se tornou universal.

Fico a pensar com meus botões: é um negócio de milhões de dólares, pois é um truste que monopolizou o mercado do mundo inteiro. É uma mina de ouro controlada pela editora Panini, que começou a circular na copa do mundo de 1970, e é sempre um tremendo sucesso a cada campeonato mundial.

O interessante é que os colecionadores de hoje não são somente crianças e adolescentes. São marmanjos empresários, universitários, engenheiros, professores, donas de casa, aposentados, enfim pessoas de todas as idades e condições sociais, que não precisam usar as velhas desculpas esfarrapadas de que estão adquirindo os pacotinhos para filhos e netos. Por outro lado, o sistema de trocas de figurinhas repetidas ampliou-se com o avanço tecnológico. Assim, através de ferramentas da internet como o facebook e twitter, adultos internautas trocam suas figurinhas e completam seus álbuns.

São os novos tempos.

Creio que esse revival deve-se ao fato de que os álbuns de figurinhas são fascinantes e tem gosto de infância e de fantasia de tempos passados. Minha geração, com certeza, diverte-se com a febre de figurinhas de jogadores que ainda toma conta do país e que provoca, como provocou, golpes extraordinários como o roubo de Santo André.

Ainda me lembro com saudade do jogo de virar figurinhas batendo com a mão sobre elas, a famosa “bafinha”. Fico encantado ao ver crianças brincando como antigamente, jogando bafinha e trocando suas figurinhas nas escolas e ao redor das bancas que até colocam cadeiras e mesinhas para seus fanáticos clientes.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.