Vendendo gato por lebre

18/12/2016 às 06:31

Numa época bem distante, quando havia um Brasil ingênuo, usava-se para explicar uma vigarice a expressão ‘comprar gato por lebre’. Explico melhor. O sujeito era enganado por um malandro que vendia um produto maquiado, de preço baixo, como se fosse um autêntico produto de maior valor. E o otário, metido a sabido, amargava o prejuízo, além de fazer o papel de bobo.

Cresci ouvindo dos adultos estórias engraçadas desses espertalhões. Mas, além dessas brincadeiras e pequenas malandragens havia, e sempre houve, muita violência no cotidiano da sociedade brasileira.

A história da humanidade, como a da brasileira, sempre esteve permeada de violência e de derramamento de sangue. É assim que o mundo caminha. Portanto, dizer que o povo brasileiro é pacífico e brincalhão, e que sua história não é violenta é, apenas, uma grande balela.

Fico, porém, neste artigo somente no entendimento da malandragem. Nesta viagem no tempo distante, o malandro dos morros cariocas era retratado como um estereótipo que vestia uma camisa listrada, calças e sapatos brancos e chapéu de palha na cabeça, e andava com um gingado no corpo. Assim foram registrados esses personagens, para a posteridade, em caricaturas, marchinhas de carnaval e nas chanchadas dos filmes da Atlântida. Foi esta a época, que não volta mais, do malandro almofadinha, o “Amigo da Onça”, que desde 1943 povoou as páginas da revista O Cruzeiro nos traços finos do cartunista Péricles.

Lembro-me também do famoso ladrão Gino Meneghetti, imigrante que aportou no Brasil em 1913, aos 35 anos, já com um rastro de bandidagem. Meneghetti tornou-se lendário na crônica policial por não usar de violência em seus roubos de joias, caminhando pelos telhados e fugindo de cercos policiais. Na contramão desta história de malandragem, existiu o “Bandido da Luz Vermelha”, famoso no mundo do crime em São Paulo, em anos posteriores. Atacava mansões ricas de madrugada, utilizando uma lanterna de foco vermelho e era violento, abusando sexualmente de suas vítimas. Esse bandido teve a sua vida filmada pelo cineasta Rogério Sganzerla, tendo no papel título o ator Paulo Vilaça, já falecido.

Deixo de comentar, por motivos óbvios, a rapinagem dos últimos tempos de bandidos de colarinhos brancos travestidos de políticos, que tem enojado e envergonhado o país. E, como consequência, quebrando a economia brasileira e trazendo a miséria para a população pobre e matando de raiva a classe média.

Como esse mundo anda de cabeça pra baixo, fico espantado com a malandragem que tem aparecido em Mato Grosso do Sul em vários momentos. Por incrível que pareça, a velha máxima de “vender gato por lebre” adquiriu nova roupagem por aqui. Assim, foi notícia na imprensa local um sujeito que “vendia galinha de granja como caipira”. Isso mesmo, malandros coloriam as penosas brancas com tintura de urucum para serem vendidas, evidentemente mais caras, como legítimas galinhas caipiras. A polícia rodoviária já aprendeu alguns carregamentos das falsas galinhas.

Fico admirado com a criatividade dessa gente que pensa que todos os demais são otários. Mas que tem muita gente comendo galinha branca, pintada de vermelho, isso tem.

Para quem não sabe, urucum é uma pequena árvore nativa que produz um fruto cheio de espinhos por fora e carregados por dentro de sementinhas vermelhas. Essas bolinhas, que dão sabor e um tom avermelhado à culinária regional, podem ser utilizadas moídas dentro do azeite. É, também, um excelente remédio para combater o colesterol, após as suas sementinhas ficarem descansando em água. Ainda, sobre esse produto natural, foi o mestre João, cozinheiro corumbaense de primeira, já falecido, quem inventou uma delícia de peixe usando esse condimento, o “Pintado a Urucum”, hoje famoso em todo o país.

Seria até bom se a contravenção e a violência fossem apenas com as galinhas “maquiadas”. O pior é que em muitas situações, e sobretudo na política brasileira, estamos levando muito 'gatuno' por lebre.

Seria o brasileiro um otário, um ingênuo, ou apenas desinformado e sem consciência de sua cidadania?

Valmir Batista Corrêa

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