Quem está por detrás das máscaras?

Li em recente coluna do jornalista Cláudio Humberto um pronunciamento do deputado federal Carlos Cadoca (PDT), ex-líder estudantil na época da ditadura militar. Ele repudia com veemência, com suas palavras, a participação de mascarados nas manifestações de ruas por serem, na verdade, ações puras de banditismo, sem nenhuma comparação com as passeatas contra a ditadura, em especial, nos anos de chumbo.

Isso me fez lembrar aqueles anos tão difíceis para a sociedade brasileira. Jovens universitários, rapazes e moças, secundaristas, trabalhadores e pessoas com consciência políticas iam às manifestações com as caras limpas. Nunca vi nesses episódios manifestantes mascarados. Pelo contrário, com orgulho cívico e patriótico se posicionavam contra a ditadura, agitando bandeiras e bradando slogans como “o povo unido jamais será vencido”. Enfrentando a polícia, tanques e cavalaria, todos acreditavam que era o momento de lutar pelo retorno da democracia no país.

A violência praticada pela polícia de sustentação do autoritarismo em nenhum momento intimidava os opositores do regime ditatorial. Muitos ficaram sujeitos a prisões, torturas e sofrimentos incalculáveis. Mesmo assim, mesmo com medo, jamais cobriram seus rostos naqueles enfrentamentos políticos.

A assustadora novidade de covardia apareceu nas manifestações de rua em 2013, nas campanhas em S. Paulo em defesa do passe livre dos ônibus. Sem uma liderança clara, o protesto foi articulado através das redes sociais envolvendo as mais diversas camadas sociais e faixas etárias. Foi um sucesso pela sua amplitude e assustou políticos e governantes. Mas entre elas apareceu um grupo com roupas pretas e mascaras, atuando com extrema violência e depredações. Quem eram eles? Passaram a ser chamados de ‘black bloc’, terminologia usada em outros países. Quem os financiaram e quais eram seus interesses, no princípio ninguém soube. 

Entendo que esses mascarados são bandidos, e não passam perto de uma ideologia política. Muitos tentaram nominá-los como anarquistas ou jovens de periferia vítimas da pobreza sem perspectivas políticas. O que chamou a atenção foi o quebra-quebra e incêndios provocados por esses vândalos, televisionados em tempo real e acompanhados a distância pela polícia. Fiquei a pensar que entre eles poderiam estar policiais infiltrados para desmoralizar os legítimos e autênticos movimentos de ruas.

Pelo sim, pelo não, em nenhum momento vi um black bloc sendo preso, mas sei que os protestos populares foram aos poucos esvaziados. Foi um alívio para o governo Dilma.

Nos últimos tempos, já distante da luta pelo passe livre, outras motivações têm levado a população às ruas, a favor ou contra o impeachment, o Fora Temer e o retorno de Dilma ao governo e, também por um novo apelo às eleições diretas.

Muitas dessas manifestações ainda trazem o ranço dos últimos embates políticos e partidários pelo controle da governança central. Creio que isso ainda vai render muita confusão, mas uma coisa está bem clara: não há em nenhum desses movimentos um sentido ideológico. Junto de muitas pessoas que se manifestam em defesa de causas justas tem aparecido com frequência os violentos mascarados.

As perguntas que não querem calar: quem sãos esses vândalos? Por que vestem essas máscaras? Quem os organiza e financia? Qual é o seu propósito real? A quem interessa a baderna e a violência? Ao tentar responder a essas questões pode-se aproximar da verdade.

Para finalizar, peço licença ao deputado Carlos Cadoca para usar as suas tão oportunas palavras: “brasileiros que encararam a luta contra o regime militar repudiam as manifestações violentas de criminosos mascarados, fantasiados de ativistas. Eles se escondem no anonimato para cometer os crimes de incendiar ônibus e carros particulares, depredar patrimônio público e atacar pessoas a pauladas, como ocorreu em Brasília. Quem deu a cara contra ditadura não respeita quem esconde na democracia”.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.