Céu de Giz

Era lá que a criança da manhã rabiscava com seus dedos de Sol os telhados das casinhas todas iguais. Janelas e portas, sem alpendres ou varandas, debruçavam-se preguiçosas pela rua vestida de paralelepípedos e de cirandas.

Sob o luar, a mãe costurava  roupas de ir à missa. Um olho azul espiando a agulha e linha. O outro, a amarelinha. O ouvido bem aberto às vozes infantis das duas filhas, censurando, quando em vez, possíveis palavrões que se resumiam em “sua boba”,sua besta”.

Era quando levantava ambos os olhos naquele sereno e perfeito cenho, ralhando com firmeza lusitana: - “Olha a boca suja! Vou lavar com sabão”, que, à época, era feito por ela mesma em grandes tachos.

Diante da terrível ameaça dos grandes pedaços de cinzas, banha de porco e soda cáustica, e que emanavam um odor enjoativo, espumando na boca, o linguajar “indecente e pecaminoso” silenciava, ouvindo-se apenas as batidas ritmadas da pedrinha sobre a calçada riscada de giz e o baque surdo dos sapatos duros pulando o 1,2, 3, 4... até chegar ao Céu, escrito com enormes letras. 

Esse Céu, por certo, não era o mesmo que o padre, cego de um olho e costumeiramente rancoroso, descrevia para a meninada nas aulas de catecismo: um lugar cheio de anjos, de luz, com Jesus Cristo recebendo a todos, desde que tivessem sido batizados, confirmados em Crisma, que não faltassem às funções da Paróquia, se confessassem e comungassem pelo menos uma vez na semana, que não tivessem caído nos pecados de ser mãe solteira ou de viver em concubinato.  E claro, na sua pregação, jamais entrariam no Céu do Gozo Celestial os de outras religiões.

Não, por certo que o chão da amarelinha era um outro, aquele onde a criançada podia pisar, respirar, olhar triunfante para o restante do grupo e de lá voltar quantas vezes quisesse.

Era um Céu de giz, onde morava Dona Liberdade, mesmo que por fugazes instantes, até trocarem a brincadeira... Mas já estavam avisadas: -Balança-caixão não pode!  Porque no final tinha sempre aquele refrão: “dá um tapa na bunda e vai se esconder”. Era nessa hora que as irmãs ficavam de fora, só olhando a algazarra das outras,  derretendo-se  em vontades de se prender  também na cintura da  criança  à frente  da fila, em tascar-lhe um tapa no seu traseiro  para depois  sair  em debandada, buscando esconderijo.

Adolesceram ainda com a curiosidade pelas brincadeiras proibidas. Mas aprenderam a rabiscar seu próprio Céu, perdoando o velho padre, compreendendo os cuidados da mãe e, acima de tudo, enterrando para sempre qualquer vontade de  balançar caixões e estapear quem lhes estivesse à frente.  Ou atrás.  

Sylvia Cesco

Sylvia Cesco

Professora, poeta, mulher do mato.