Os novos cangaceiros

O que nos espera no ano de 2017 que mal começou? Muitas coisas estão aí para assustar quem ainda pensa em viver bem no país. Penso que existe uma herança maldita, resultado do descaso e inoperância dos administradores em tempos passados. É pessimismo? Penso que não; é apenas uma dura realidade que deve ser encarada.

Primeiro penso na pesada “tradição” da nossa história e suas maléficas consequências. Recentemente (refiro-me aos últimos 20/30 anos) o desvio de dinheiro realizado por políticos e empresários quebrou empresas públicas e, em consequência, afundou a economia do país. E o que é pior, poucos foram os punidos. A irresponsabilidade e a roubalheira atingiram prefeituras, governos estaduais e o próprio governo federal. Assim, o final do ano passado foi um terror para funcionários públicos, com salários atrasados e uma multidão de desempregados. O que fazer? Este vai ser um desafio sem solução a curto prazo.

Esta é uma nova modalidade de banditismo urbano. A cada dia temos notícias de golpes e mais golpes praticados por políticos e empresários espertalhões que são os cangaceiros de gravata e colarinho branco.

Outra questão que nos assusta é a realidade das grandes cidades, vivendo uma verdadeira guerra civil com violência estremada, assaltos, mortes e sequestros. A bandidagem de hoje utiliza armamentos de grosso calibre intimidando a vida da população ordeira. Além do mais, os bandidos se organizam como empresas e consórcios dos crimes.

A pergunta que fica é como essas armas chegam às mãos dessas gangs urbanas? É público e notório que elas entram pelas fronteiras do Brasil com o Paraguai e a Bolívia, aliás forradas com as drogas que também infestam o país. É óbvio, e está na cara, que existe uma incompetência ou favorecimento das polícias estaduais e federais.

O crime organizado criou um estado paralelo dominado por verdadeiras ONGs, que hoje estão adquirindo um poder muito forte e maior que o próprio estado. E isso é uma vergonha para o Brasil.

Esses PCCs da vida têm presença efetiva na própria política partidária financiando candidatos nas eleições; na disputa pelo controle de drogas e armas e seus pontos de distribuição e comércio; e até, infelizmente, no cotidiano da população, especialmente nos bairros pobres. Agora, o massacre nos presídios de Manaus mostrou com clareza o que as autoridades vinham empurrando para baixo do tapete: o controle absoluto dos presídios por grupos do crime organizado. O que é pior, essas organizações existem em todos os presídios do país, e mandam mais que as próprias forças policiais.

Assisti um documentário sobre um presídio na Bolívia que se transformou numa cidade de bandidos, onde nem a polícia entrava. Quem comandava a cadeia eram os chefes de gangs que davam até garantias às famílias dos presos que, curiosamente, ali moravam também. Em Assunção do Paraguai existe um presídio, no bairro de Tacumbú, nesses mesmos moldes. Agora sei que o inferno prisional existe entre nós.

Levando em conta que o brasileiro é criativo, existe ainda um outro tipo de cangaço urbano que, como a sua versão original, também começou no Nordeste e se alastrou para todo o país. São quadrilhas que atacam cidades, grandes ou pequenas, montadas não em cavalos como antigamente, mas em possantes carros e camionetes, com armamentos pesados para explodir caixas eletrônicos de bancos. Com extrema violência eles aterrorizam a população local. Esses grupos, usando de recursos de tecnologia avançada e de planejamento estratégico, passaram a praticar assaltos em pedreiras para roubar dinamite e cordel detonantes.

O caso mais recente ocorreu aqui em Campo Grande (MS), na Pedreira São Luiz, onde foram surripiados 275 kg de dinamite e 836 metros de cordel especial para explosões. E ninguém foi preso até agora. E pensar que por aqui já reinaram em tempos idos os cangaceiros do Pantanal e dos Cerrados mato-grossenses, os famosos Baianinhos, Silvino Jacques, Sismórios, Quatreros e outros “freelancers”. Hoje nossa região não tem mais esse estigma exclusivo de banditismo e cangaço rural, porque todo o país está contaminado.

Onde vamos parar?

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.