MS: O sentido da nossa história

Neste ano de 2017 completa-se 40 anos da criação do estado de Mato Grosso do Sul. Para os desavisados, a aplicação da palavra fundação não é a mais correta e sua real instalação ocorreu somente no início de 1979. A criação de um estado por um decreto da ditadura militar faz com que algumas pessoas acreditem que a história de Mato Grosso do Sul é algo recente e pouco importante, começando apenas a partir dessa decisão governamental. Ledo engano, pois não se interfere na história de uma grande região através de uma penada, um simples decreto. E somos o produto de uma história de longa duração que se iniciou há 8 mil anos com a presença de povos ancestrais, caçadores e coletores.

A história é uma construção humana coletiva, desenvolvendo-se ao longo do tempo através de relações econômicas, políticas, sociais e culturais, com avanços e recuos, que se consolidam em um longo e complexo processo histórico em constante movimento pelo tempo, resultado de muitas variáveis e gerando sempre fatos novos. Por estas e outras razões, que não cabem neste artigo, é imprescindível estudar e repensar nosso passado, sempre a partir das perguntas que fazemos no presente.

Isso justifica a necessidade da leitura e releitura dos documentos antigos, obras antigas e memórias de quem, à sua maneira, participou dos acontecimentos do passado. Desse modo, espera-se que instituições culturais e governamentais promovam publicações como contribuição à compreensão da histórica do nosso Estado.

No governo estadual passado foi editada, para o aplauso de muitos, uma coleção chamada “Documentos para a história de Mato Grosso do Sul”, em 12 preciosos volumes de capa dura. Na época fiquei sabendo que a coleção foi distribuída nas escolas estaduais. Guardo com carinho um exemplar dessa coleção em minha biblioteca. Com certeza, esta fabulosa produção editorial deve ser entendida como uma contribuição legítima do governo estadual e um exemplo de que suas tarefas não devem ser restritas à infraestrutura, às políticas sociais, à saúde e à educação escolar, mas também tem o dever com a promoção da cultura de seus governados. Infelizmente, poucos governos destinam recursos para divulgar sua própria história.

Nesta mesma perspectiva, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul há anos vem se dedicando a produzir uma vasta e importante coleção de livros, chamada “Memória sul-mato-grossense”, financiada pelo FIC. Até o ano passado, foram publicados 31 volumes, num esforço coletivo de seus membros e coordenado pelo saudoso professor Hildebrando Campestrini. Neste ano, o IHGMS pretende publicar mais 9 volumes da referida coleção. Além disso, o Instituto tem uma pequena livraria com mais de 100 títulos, aberta a quem quer conhecer a história do nosso Estado, a preços módicos.

De certa forma, Mato Grosso do Sul vem recuperando gradativamente um banco de memórias, reunindo uma bibliografia essencial para que jovens e crianças tenham a oportunidade de conhecer e de valorizar seu passado e desenvolvam a noção de pertencimento e de cidadania. A tarefa urgente é a preservação de livros e  de documentos registrados por autoridades públicas e por particulares, para tornar a história de nossa região conhecida e acessível

Isso parece um ato simples e consensual, mas a realidade não é bem assim. O mais comum entre administradores públicos e pessoas comuns é um desprezo por tudo que é passado e antigo, sejam documentos, livros, fotos, postais, mobiliário ou objetos que representam uma época passada. Pior do que o descaso é a destruição de documentos e monumentos antigos, mesmo que tenham um enorme e singular valor histórico. Esse valor a que me refiro é o fato de que a história de um povo é o seu mais valioso patrimônio.

É preciso, portanto, fazer um permanente alerta contra a constante perda de documentos, considerados simples papéis velhos que só servem para entupir repartições públicas. Cidades como Corumbá, Miranda, Nioaque, Campo Grande, entre outras, surgidas e construídas num longo processo de formação deste nosso Mato Grosso do Sul, sofrem cotidianamente uma perda irreparável através do abandono de seus registros que, em muitos casos, são literalmente destruídos e queimados.

Poucos se dão conta do perigo que isso representa. Um povo sem história não tem memória e também não tem porque viver e lutar. Pode ser facilmente vencido pela dominação cultural (e obviamente política e econômica) exógena que se sobrepõe às tradições, usos e costumes locais e regionais. Somos dominados aceitando passivamente crenças, costumes e tradições de outros povos. E perdemos dessa forma nossa autonomia e liberdade de pensar e de agir, apenas reproduzindo o que interessa a outros.

Em vista desta situação, o IHGMS se propõe a fazer uma campanha em todos os municípios do Estado, de esclarecimento, valorização e preservação dos documentos históricos e da memória regional. Algumas iniciativas, como as vistas acima, são ótimas, mas ainda é pouco. Todos os sul-mato-grossenses e os que amam este pedaço maravilhoso do Brasil, devem pensar um pouco mais sobre isso.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.