Assim caminha a humanidade

É a barbárie ou o fim dos tempos, ou o Armagedon, como profetizou Nostradamus, cuja data foi obcecadamente procurada por Isaac Newton.  Hoje, qualquer um pode ver que muitas partes do planeta vivem o inferno da guerra com todo o seu cortejo de violência e de crimes hediondos.

Mas, como é possível haver tanta violência numa sociedade como a brasileira que vive em paz?  Será que aqui há paz ou é falácia que o povo brasileiro é alegre e pacífico como cantado em prosa e verso? Essas perguntas incômodas motivam necessariamente, uma séria discussão sobre os rumos que a sociedade brasileira está tomando. Basta ver neste janeiro a loucura e a violência animalesca ocorridas nas rebeliões nos presídios em vários estados do país.

Penso com tristeza que já estamos vivendo um estado de violência costumeira, que não surpreende mais, bastando ligar a televisão para ver o que está acontecendo. Essa situação de violência do cotidiano não é mais novidade para quem convive apenas nos morros cariocas, onde existe uma guerra civil formalmente não declarada, num desafio frontal e desmoralizador ao poder público estatal. Para quem se debruça sobre a criminalidade na história brasileira, pode pontuar crimes horrorosos desde os idos do período colonial. Muitos desses acontecimentos criminosos ficaram esquecidos e restritos, pela precariedade de comunicação, a poucas pessoas, ou até pela falta de documentação adequada.

Dessa forma, diversas notificações de crimes chegaram até nós através do esforço de pesquisas em documentos policiais antigos, inquéritos e processos criminais. Isso comprova que a história brasileira, como as histórias de outros países, também foi feita com muito sangue derramado. Isso sem mencionar os conflitos coletivos e rebeliões que ocorreram às pencas.

Com a globalização via internet, as notícias sobre acontecimentos violentos chegam até nós em tempo real, em qualquer canto do país e do mundo.  Nós nos horrorizamos a cada momento com os crimes de ódio, de disputa de territórios da contravenção, ou simplesmente pela ausência de parâmetros de valores que fazem a diferença entre homens e animais.   São crimes de dimensões alarmantes, acontecendo muito próximos de nós, únicos e sem precedentes na sociedade brasileira.

Entre centenas de casos, pinço alguns que tiveram grande repercussão pela sua selvageria. Começo a citar o episódio de um casal que jogou sua filha, uma menininha de 6 anos, do alto de um prédio. Outra demonstração da miséria humana foi o assassinato de uma advogada, cujo assassino, também advogado, tentou desaparecer com o corpo em uma lagoa. Outro fato relacionado a Mato Grosso do Sul, foi uma jovem aqui nascida que teve o seu corpo escondido, e supostamente devorada por cachorros, com o envolvimento de um jogador de futebol famoso, de um grande time nacional. Aqui mesmo, em Campo Grande (MS), uma arquiteta foi queimada viva pelo marido.

O escritor português, Gonçalo Tavares, que esteve em uma das edições da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, conhecido por obras que retratam a sordidez humana, deu ao jornal Folha de S. Paulo uma entrevista que ajuda a entender um pouco da violência explícita no nosso cotidiano. Diz de forma brilhante: “O ser humano é potencialmente uma máquina da maldade. Mas também é uma máquina de bondade. Temos dois motores em funcionamento, o de fazer atos maldosos e um para atos bondosos”.  É de forma metafórica que a humanidade carrega desde os seus primórdios o sinal de Caim.

Como diz um amigo meu, “assim caminha a humanidade”. Creio, porém, que caminhamos por um rumo perigoso e autodestruidor.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.