As tradições culturais e o fanatismo

Em nossa época, supostamente dominada pela ciência e pela tecnologia, o fanatismo parece ser uma reação “made in” recalcado do inconsciente da humanidade.

Fanatismo, vem do latim fanaticus, quer dizer "o que pertence a um templo", fanum. O indivíduo fanático ocupa o lugar de escravo diante do senhor absoluto, que, pode ser uma divindade, um líder mundano, uma causa suprema ou uma fé cega. 

O fanatismo é alimentado por um sistema de crenças absolutas e irracionais que visa servir à um ser poderoso empenhado na luta contra o Mal. Ou seja, o fanático acha que pode exorcizar pessoas e coisas supostamente possuídas pelo demônio" , "combater as forças do Mal" ou "salvar a humanidade" do caos. 


Tendo origem no dogma religioso, o fanatismo não se restringe a esse campo único; existe fanatismo por uma raça, um time de futebol, por um partido político, sobretudo por ideologias revolucionárias quando extrapolam a dimensão racional, sentindo-se guiada pela "fantasia da escolha divina". 

Foi o fanatismo religioso que fez muitos seguirem Jin Jones (Templo do Povo), Asahara (Verdade suprema), David Koresh (Ramo davidiano), Jo Dimambro (Templo Solar) e tantos outros místicos ou charlatães que terminaram causando tragédias coletivas, noticiadas no mundo todo.

A história conheceu também os histerismos coletivos da "caça as bruxas", a perseguição aos negros, índios, comunistas, homossexuais, prostitutas. 

 O movimento da Jihad islâmica contra os "infiéis do ocidente" e a "guerra aos terroristas" do ocidente cristão, demonstram que o fanatismo está vivo e atuante em nossa época supostamente "científica" e "tecnológica". 

Precisamos admitir que, a história da humanidade é também a história dos vários fanatismos dominando grupos humanos, sempre com consequências trágicas. 

Esse pedaço da história renegado nos causa vergonha, medo e sinalizam alertas para possíveis efeitos negativos no rumo da civilização. 

Como dissemos, o fanatismo atua para além do efeito religioso, mas não extrapola ao campo ideológico como um todo. Há fanatismo entre crentes de todo o tipo, do menos ao mais irracional. Mas, não existe fanatismo racional, em que pese o fato de um certo tipo de razão (instrumental, cínica, etc) também ter cometidos os seus desatinos e crimes . 

Assim, para o fanático religioso, não basta adorar um Deus visto como Senhor absoluto, é necessário ser soldado dele na terra, lutar pela causa superior, pregar, exorcizar, forçar os "infiéis" ou "divergentes" à conversão absoluta, à qualquer preço. 

O fanático está sempre disposto a dar provas do quanto sua causa suprema vale mais do que as próprias vidas: dele, de sua família ou mesmo de toda a humanidade. Ele mata por uma ideia e igualmente morre por ela.

Os sintomas do fanatismo, em grupo, são: orações, privações, peregrinações, jejum, discursos monológicos e martírios que podem terminar com o sacrifício da própria vida visando salvar o mundo das "trevas" ou do que ele entende ser "o mal" . 

O sentimento que no fundo sustenta o fanatismo e o fascismo não é a fé, nem o amor [Eros], mas o ódio [Thanatos] e a intolerância. O desejo do fanático "autêntico" é dominar o mundo com seu sistema de crença cheio de certeza. 

O fanatismo parece ser uma doença contagiosa, pois tem o poder de atrair adeptos geralmente em crise profunda de vida pessoal. Fanáticos e suicidas tem em comum a falta de humor e o desapego pela própria vida. A certeza cega tira-lhes o humor e os colocam no caminho do sacrifício místico. 

O escritor e pacifista israelense, Amós Oz, numa carta ao escritor japonês Kenzaburo Oe, Prêmio Nobel de 1994, escreve ter encontrado a "cura para o fanatismo": o bom humor. Diz que: "nunca vi um fanático bem-humorado, nem alguém bem-humorado se tornar fanático". Oz imagina uma forma mágica de prevenir o fanatismo: um novo tipo de messias que "chegará rindo e contando piadas". 

Emil Cioran, um filósofo amargo e pessimista, vê nas atitudes dos céticos, dos preguiçosos e dos estetas, os únicos que verdadeiramente estão a salvo do fanatismo. Já os religiosos estreitos, os políticos sectários, os dogmáticos que habitam em todas as áreas do conhecimento, tendem ao fanatismo com seus instrumentos próprios. O fanático jamais se pensa ser fanático . 

Enfim, é preciso estarmos atentos e preparados para resistir os apelos do fanatismo que como erva daninha não escolhe lugar para germinar e se alastrar. 

Os grupos fanáticos exercem um atrativo para os indivíduos que possuem uma estrutura psíquica vulnerável, os desesperados, os desgarrados, os avessos ao espírito crítico ou predispostos à crendice, ao desejo de encontrar uma certeza e a se "contentar-se com pouco" na terra, porque ele tem certeza de que ganhará na suposta vida após a morte. 

Tanto o fanatismo como a guerra estão entre as situações que se encontram na contramão da sabedoria.

Pio Barbosa Neto

Professor, escritor, poeta, roteirista

Referências bibliográficas

ALVES, R. Entre a ciência e a sapiência. São Paulo: Loyola, 2001 
BECKER, S. A fantasia da eleição divina; Deus e o homem. Rio de Janeiro: C. de Freud, 1999. 
CHEMAMA, R. Dicionário de psicanálise. Porte Alegre: Artes Médicas, 1995. 
CIORAN, E. Genealogia do fanatismo. In: Breviário da decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p.11-100. 
DEMO, P. Dialética da felicidade; felicidade possível. V. 3. Petrópolis: Vozes, 2001. 
ECO, U. A nebulosa fascista. In: Folha de S. Paulo – Mais!, 14/05/95. 
ENZENSBERGER, H. M. Paranóia da autodestruição. Folha de S. Paulo - Cad. Mais! 11/11/2001, 5-7. 
FREUD, S. [1911] Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia (dementia paranoides). Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. XII, p. 15 -105. 
_____. [1917] O futuro de uma ilusão. Rio: Imago, 1974, v. XX1. 
GARCIA-ROZA, L.A. O Mal radical em Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. 
JAPIASSU, H. Desistir de pensar? Nem pensar! São Paulo: Letras & Letras, 2001. 
JURANVILLE, A. Lacan e a filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987. 
KILLER CULTS. Documentário dirigido por Catherine Berthillier e Bernard Vaillot. France 3 - canal Vie, 1998. 
KURZ, R. A síndrome do obscurantismo. Folha de S.Paulo - Mais! 05/11/1995, p. 12. 
LALANDE, A. Vocabulário técnico e crítico de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993. 
MANVELL, R. & FRAENKEL, H. Göering. Rio de Janeiro: 1962. 
MORIN. E. Entrevista ao programa Roda Viva. São Paulo: TV-Cultura, 2000. 
MRECH, L. Psicanálise e educação: novos operadores de leitura. São Paulo: Pioneira, 1999. 
NASIO, J.-D. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal. São Paulo: Hemus, s.d. 
ROUANET, S. P. Os três fundamentalismos. Folha de S.Paulo- Mais! 21/10/2001. 
ZUSMAN, W. Terrorismo: um bolo em camadas. Vértice-revista virtual de psicanálise. out/ 2001.

Pio Barbosa

Articulista. Consultor legislativo da Assembleia Legislativa do Ceará