Jorapimo vive

04/03/2017 às 22:25

Em 22 de novembro de 2009 faleceu em Campo Grande o artista plástico José Ramão Pinto de Moraes, o Jorapimo, longe da sua terra natal que tanto amou, depois de longa enfermidade e sofrimento. O céu de Corumbá, com suas cores fortes e brilhantes, rasgado por raios vermelhos e amarelos, amanheceu pálido e cinzento nesse dia. As lavadeiras que caminhavam dia a dia até o rio Paraguai, com suas enormes trouxas de roupa à cabeça, andaram em passos mais lentos e tristes. Os pescadores em suas toscas pirogas, cercados de flores de camalote, olham as águas mais pensativos que de costume; os que carregam coloridos peixes em varal, sobem as ladeiras de Corumbá também lentos e tristes. É a nostalgia de uma gente que perdeu um membro ilustre de sua comunidade, aquele que transformava suas angústias e suas vidas em desenhos e cores de rara e especial beleza. Mas não apenas os pescadores; foi Corumbá inteira que perdeu um de seus filhos mais criativos, e o Pantanal, o seu propagandista maior.


Jorapimo nasceu em 1937 e viveu grande parte de sua infância e juventude na cidade de Campinas/SP. Superando dificuldades, autodidata, desde cedo interessou-se pela pintura, recebendo influências dos mestres clássicos da pintura universal, sem deixar, porém, o seu olhar e o seu coração voltarem-se para o Pantanal. Consolidado como artista plástico, radicou-se definitivamente em Corumbá a partir de 1974. Até então, já tinha apresentado seus trabalhos em diversas exposições individuais, sendo a primeira em Corumbá, no ano de 1963.

No seu retorno a Corumbá, novamente expôs a sua produção artística, retratando as vida cotidiana da cidade e do Pantanal. A partir de então realizou uma incessante e frenética produção artística, somente interrompida pela fatalidade de sua doença. Agora, Jorapimo está pintando anjos e cenários pantaneiros celestiais.


Em 1978, entre as comemorações da passagem do bicentenário de fundação de Corumbá e de Ladário, Jorapimo participou, ao lado dos maiores artistas plásticos do estado, de um grande salão de artes, recebendo uma premiação. Na época, quando o conheci, fiquei encantado com a beleza plástica de suas obras. Porém, estreitei nossa amizade somente dois anos depois, quando fui Secretário Municipal de Educação fazendo uma longa e profícua parceria com o artista. Lembro da sua chegada na Secretaria com uma proposta de produzir um folder sobre o carnaval, em silk screen.


De fala mansa, andando como que deslizando sobre o solo, com rosto vincado por traços de índio pantaneiro, Jorapimo, com linhas simples e fortes contrastes de cores, com maestria inigualável dava golpes de espátula nas telas, gravando para a posteridade camalotes, aves esbeltas ou desengonçadas, jacarés, as águas pantaneiras, o casario do porto, barcos ancorados nas margens do rio e, tudo isso, sem deixar como referência mais importante o homem pantaneiro. Algumas vezes, fugia da sua temática preferencial para pintar cenas dramáticas da guerra com o Paraguai. Tenho em meu acervo vários quadros de sua autoria, um deles retratando a Retirada da Laguna e outro, uma releitura de uma batalha nas águas do rio Paraguai.

A sua obra, pela importância e qualidade, extrapolou as dimensões territoriais de sua querida Corumbá. Fez exposições em Campo Grande, Campinas, Cuiabá, São Paulo, Rio Claro, Vitória e, no exterior, expôs no Japão, Alemanha, Estados Unidos, Paraguai, Bolívia e Uruguai.

Hoje suas telas e outros trabalhos em tecidos e diversos materiais estão espalhados pelo país e pelo mundo tornando impossível quantifica-los, pela vastidão de sua produção.


Velho companheiro de lutas, você continua fazendo uma falta danada onde hoje predomina a melancólica mediocridade dos que “se acham” artistas. Refiro-me à falta física, por que seu legado para a cultura sul-mato-grossense é universal e perene.

Os grandes artistas como Jorapimo são imortais.

Valmir Batista Corrêa

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