Cuidemos para não cair no limbo da irreflexão

"Alea jacta est"

10/03/2017 às 14:10

“Não há homem justo, não há um sequer” (Romanos 3,10).

Agora que o Sol anula as trevas da política e parte do mundo e sua gente retorna no tempo revelando-se por suas ações e pensamentos as escâncaras, firmam-se destemidos e até ciosos de tudo que não serve mais para a moderna sociedade; são uns teimosos! Para esta gente seguir pra frente é sinônimo de resgatar um passado que já não deu certo. E como há exemplos nestes dias atuais. Um que ofereço está no vídeo acima desse texto. Boçalidade que já não me surpreende. E este não é o pior dos exemplos.

Vez por outra me deparo com críticas daquelas que buscam todas as formas de argumentação e, enfim, nada argumentam, porque são um amontoado de palavras que não servem ao que se prestam e são usadas com o objetivo de ofender, denegrir, xingar, injuriar, insultar e, pior, impor uma correção ao escriba com o fito de, também, exigir que este escreva o pensamento do histrião que se diz crítico e censor.

Falta atenção na leitura? Falta conhecimento? Sobra incapacidade de interpretação do que lê? Ou é meramente mesquinha vontade de ser o dono absoluto da “sua” verdade? Vai ver são só mal-educados mesmo.

O Brasil está entre os países que mais abriga pessoas de variadas nacionalidades. Somos um todo de nacionais e não nacionais. Mas sabem o que nos torna cidadãos brasileiros, natos ou não?, é o livro de regras a que chamamos Constituição da República Federativa do Brasil. A Lei das leis nos abriga sobre as Garantias que elenca, nos permitindo até mesmo falar bobagens e ser idiotizado por natureza. Mas há limites. Para os que o ultrapassam “alea jacta est” (a sorte está lançada), e que suportem a sanções previstas nos livros das regras, do topo até a base da pirâmide do arcabouço jurídico.

Portanto, caros leitores, ler uma notícia exige mais do que a simples capacidade de unir letras, formar sílabas e identificar palavras; exige o que é primacial: interpretá-las. Sem interpretação caímos no limbo da irreflexão e saímos por aí dizendo e fazendo bobagens.

É uma questão de causa e efeito. Mal identificada a causa, o efeito se torna defeito interpretativo.

René Descartes afirmou: “Mesmo os mais perfeitos espíritos terão necessidade de dispor de muito tempo e atenção”.

O pensador Descartes não poderia ser diferente ao expor argumentos fundantes de suas reflexões. O que se tem em estudo ainda na atualidade, conhecido como dúvida sistemática, decorre daquilo que Descartes conceituou como “dúvida hiperbólica”, atinando sobre o dever da continuidade da inquirição acerca da veracidade dos fatos que nos são apresentados como verdade absoluta. Busque-se em sua obra Discurso sobre o método (1637); chamou de hiperbólica todas as dúvidas exageradas e advertiu para a imprescindibilidade de se examinar amiúde os conceitos que as afetam de modo a ser possível admitir por verdadeiro, o que de fato verdadeiro é, e declarar, sob suspeição, tudo o que não pode ser distanciado de um mínimo de incerteza.

Por essa razão, vejo com regozijo a mais nova vedete dos verbetes que se insere no cotidiano do povo: “Pós-verdade”.  É a denúncia berrante do perigo ardiloso que leva alguns a práticas inconsequentes.

Eleita pelo Oxford Dictionary como a palavra do ano 2016, assim vem definida: “Adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.”

Reflitam! Não é o que vivemos hoje?

Em 15 de abril de 2016 escrevi um artigo com o título: “Roteiro de um golpe? Tudo Coincidência?” [1] Dele quero destacar dois parágrafos:

(1) “Nada mais cretino do que produzir o que já está dado e fazer de todo o contexto uma insinuação em retórica argumentativo-interrogativa sem eira nem beira e eivada de ironias, além de, conjugar fatos como causas e consequências.”

(2) “Entre tantas verdades já não sei quais são as mentiras. Ou será o contrário?”

 Repito: - Não é o que vivemos hoje?

No rastro das descobertas de práticas criminosas deste ou daquele político, parcela do povo adota um lado por livre consciência ou por duvidosa conveniência, e parte para o exercício arbitrário das próprias razões. Boa parte dessa gente ataca a dignidade das pessoas, depreda o patrimônio público, desacata as autoridades, abre mão da própria civilidade em nome do que pensa exaltar: a proteção de direitos. A causa afim é boa, os meios não. Ou acreditamos na justiça – que não se encolhe – ou sobrepujamos a maior de nossas armas: A Democracia.

Esse sistema de governo em que povo exerce a soberania, direta ou indiretamente, não autoriza esse mesmo povo, diante da insatisfação, promover a anarquia e o caos. Para a correção do que está errado a própria Constituição Federal contém instrumentos de pesos e contrapesos para equilibrar o sistema.

Destarte, não concordo com depredações, com invasão das casas dos Poderes, com a agressão aos políticos em locais públicos e com qualquer outra forma de incivilidade, pois revelam e expõem a incapacidade de alguns em lidar com as diferenças de modo coerente e dentro das regras gerais de convivência para resolver os problemas da sociedade, problemas esses que não são só e tão somente de um único indivíduo. Seria a Torre de Babel a preceder o conflito social.

A lei sempre foi e sempre será, por sua cogência, o marco civilizatório, e sua contínua evolução, ora restringindo, ora constrangendo, ora forçando o comportamento humano no seio do que se tem por sociedade organizada, ampara e protege o binômio Éthos&Moralis.

“A calma impede que se cometam graves erros” (Eclesiastes 10,4). 

JM Almeida


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