A Coisificação do Outro

A experiência como agente de assimilação do conceito filosófico

Coisificação
(coi.si.fi.ca.ção)
sf.
1. Fil. Transformação dos seres humanos, suas propriedades, relações e ações, em seres semelhantes a coisas, que se comportam de acordo com as leis do universo das coisas; REIFICAÇÃO
[Pl.: -ções.]
[F.: coisificar + -ção]
Fonte: Dicionário Caldas Aulete http://www.aulete.com.br/coisificação

 

Trago em mim “esperança” como sinônimo de “fé”, que me permito definir “crença no improvável”. Eu sou um homem de fé.

A experiência sempre será agente eficaz do aprendizado. Graças a Deus.

A vida indica e comprova, invariável e constantemente, que em tudo há caracteres positivos; em todo evento há uma lição útil e em toda pessoa há uma virtude ao menos.

Este artigo é o testemunho de um cidadão comum, que amargou a experiência de presenciar pessoa amada, em momento de extrema agonia e sofrimento profundo – justificável e facilmente compreensível -, ser tratada com frieza cruel e indiferença chocante, por aquela instituição que deveria tratar-lhe, no mínimo, digna e respeitosamente, simplesmente pela natureza essencial do serviço a que se propôs a prestar: um hospital. Falar em “excelência” me parece utópico depois dos fatos que narrarei a seguir:

O contexto.

Uma mulher madura, capaz, produtiva e em plena atividade; mãe de duas crianças; nem melhor nem pior que ninguém, cumpridora de seus compromissos; realizada em diversos aspectos profissionais, vê-se diante da necessidade de inevitável intervenção cirúrgica, cujo objetivo é prevenir iminente fatalidade.

Apreensão diante de tal prognóstico, conduz o indivíduo, naturalmente, à reflexão focada na avaliação de sua caminhada, os riscos concretos que se lhe apresentam, nas possibilidades todas.

No caso em questão, tal reflexão conduziu-a inevitavelmente, a uma das mais duras realidades de um ser humano: a do futuro incerto. Pior, o temor de sair de cena vendo incompleta a tarefa divina que configura a condução da formação de sua prole, a forja daquela que é sua contribuição essencial à humanidade, seu legado, a sua semente, ainda em broto, na Terra dos homens.

Nas 72 horas que antecederam a realização do procedimento cirúrgico, dita reflexão foi causa do aumento gradativo de efeito nefasto: o medo.

Os fatos.

A mulher acima citada, compareceu no horário combinado para internação e posterior realização do procedimento médico necessário. Trazendo consigo toda carga de sentimento aludida na descrição do contexto.

O tratamento dispensado à paciente, caracterizou-se pela absoluta indiferença à condição de ser humano que padece de mal que lhe priva do bem-estar e lhe impõe medo, materializou-se de forma incontestável no proceder do profissional incumbido do cumprimento das formalidades burocráticas exigidas, provavelmente cumprindo à risca o protocolo que lhe foi ensinado. Explico.

Embora a internação em questão fosse de caráter eletivo - que pode ser agendada, sem urgência -, mesmo com a paciente presente, consciente, lúcida, disposta, o procedimento deu-se de forma idêntica àquele em que há urgência, e que o paciente está inconsciente e/ou incapacitado temporária ou permanentemente.

Enquanto de um lado havia usuária do plano de saúde em dia com sua obrigação contratual, de outro a instituição que lhe deve a contrapartida acertada no mesmo contrato a lançar mão de recursos legais (contratuais), incrementados por protocolo de atendimento (procedimentais), com finalidade evidente de esquivar-se dos riscos típicos do serviço presta, promover de forma inescrupulosa incremento dos lucros e redução de custos, arranjo que não me furto classificar, no mínimo, imoral.

Como pode? Não pode, mas fazem assim:

No desenrolar do trâmite burocrático, sentada diante do recepcionista, comigo de pé ao seu lado, atento e concentrado nas orientações, a paciente informa que serei eu seu acompanhante. Nesse momento, sob pretexto de “cadastrar os dados do acompanhante”, foi-me solicitada a apresentação de documento de identificação, prontamente atendida. Tudo bem até aqui.

Na sequência, sem explicação alguma, o recepcionista passa a se dirigir diretamente a mim (como se a paciente já não estivesse mais ali) e me entrega ficha simples pra que eu eleja um representante legal (“caso o senhor falte no momento da alta”, explicou o atendente). O detalhe curioso foi eu notar que ali, naquela ficha, já havia sido convertido em algo mais que mero acompanhante, mas em “responsável pela internação”. Desconfiado, mas temendo agravar a apreensão de minha companheira inflingindo-lhe constrangimento desnecessário, preferi não me precipitar. Estranhei mais ainda, quando foi-me solicitado que eu informasse minha profissão e natureza da minha relação com a paciente.

A natureza e os contornos do golpe - sob o filtro dos valores e princípios, trazidos de berço, em que pauto minha vida, trata-se de golpe ardiloso e desumano – já eram evidentes aos meus olhos, mas para que eu pudesse levantar a lebre, carecia de elemento concreto e incontestável, que não demorou nada pra chegar.

Para finalizar o trâmite burocrático, o recepcionista tira da impressora um documento e entrega diretamente a mim, com a seguinte recomendação: “Assina aí. Isso é só um papel que confirma que o plano cobrirá todas as despesas”. Assinei prontamente para agilizar o atendimento, visto que o suposto teor do documento havia sido sintetizado oralmente pelo atendente. Passei os olhos a fim de confirmar o que me fora dito. Não me surpreendeu que a natureza, bem como o teor do referido documento não estivesse em conformidade com a informação adiantada informalmente.

Aquilo que eu cria ser um cadastro dos dados de acompanhante, era, em verdade, “Contrato de Prestação de Serviços Médico-Hospitalares, fornecimento de Materiais e Medicamentos – Plano de Saúde”. Ao ler do que se tratava, estranhei que não tivesse sido tal documento entregue à contratante, presente ali, diante do recepcionista, consciente, lúcida e absolutamente desimpedida física e mentalmente. Prossegui a leitura e o conjunto de três cláusulas, grafadas em negrito, configuraram dolorosa pancada, dor e tristeza.

Sentimento que transcende em muito os limites daquele fato isolado, pois era um retrato nítido do estado embrutecido em que a sociedade se encontra neste momento. Sociedade essa que faço parte e componho...

Coagido e impressionado com o abuso, mais uma vez tentei, sem lograr êxito, evitar o constrangimento à minha companheira, que eu sabia abalada.

Com todas as letras, clareza e objetividade, perguntei ao recepcionista, se o protocolo de internação ali cumprido, ressaltando, com a devida gravidade, o caráter eletivo e a presença da paciente lúcida, desperta, disposta e desimpedida, não deveria ser diferente? Se à paciente não deveria, ao menos, ser dada ciência dos termos do contrato, e mais: se não seria ela a única pessoa competente à designação de avalista do contrato – mais que um aval, o contratante nas cláusulas citadas, na prática, não só assume todas as despesas decorrentes de produtos e serviços não cobertos pelo plano de saúde, mas prontifica-se a fazer o pagamento no ato da alta, e mais! Fica implícita a autorização prévia de tais materiais e serviços, bem como honorários médicos.

A resposta foi clara e objetiva (além de reveladora): “só entregamos esse documento ao paciente quando ele está só. Quando há um acompanhante, entregamos a ele, pra que ele mesmo assine”.

O constrangimento que eu evitara a todo custo até ali, diante dos fatos e de todos os presentes, foi inevitável: “Não posso assumir esse compromisso sob risco de não conseguir honrá-lo”. O estrago estava feito.

Havia várias pessoas testemunhando tudo de muito perto, um ou dois metros do guichê, havia aproximadamente uma dúzia de pessoas aguardando atendimento. Mas não é essa a questão crucial.

O que pesa, aos meus olhos, não é só a má fé revelada no procedimento padrão, no ritual protocolar a que nos submetemos, não é o golpe em si.  Mas o consequente dano psicológico imposto à paciente, já estava fragilizada de forma importante e severa, pela circunstância vivida. Desequilíbrio que pode impactar grandemente desde aspectos emocionais, acarretando desdobramentos fisiológicos, que por sua vez podem minar totalmente a resistência e restabelecimento do organismo, frente ao procedimento invasivo e agressivo a que será submetido.

Aos meus olhos, há dolo, infração ética e dissimulação. Há cinismo e irresponsabilidade.

Não sei tipificar o crime, sequer se há de fato um crime, tampouco enquadrar em artigo do código jurídico. Não é competência minha, não me cabe a tarefa. Mas também sei, que na condição de cidadão, se ser humano, que todo o procedimento, mesmo que seja legal, é imoral e vergonhoso. Não me furto o direito de manifestar tristeza.

Meu objetivo ao expor este evento não tem finalidade de denúncia, tampouco destina-se a expor ao ridículo os envolvidos no fato. O que pretendo, sinceramente, é que a reflexão acerca das ponderações trazidas à luz, pelas quais eu respondo, é promover debate que conduza à reformulação dos preceitos que balizam a capacitação do staf de atendimento ao público nas prestadoras de serviço de saúde, devolvendo ao serviço o caráter humanitário que perdeu-se pelo caminho.

Visão de mundo.

A fé que me alimenta e mantém de pé, indica e comprova que não, não é “sentindo no bolso” que se aprende. Mas é dor, a dor que ensina. É a perda daquilo que lhe é indispensável, o agente fundamental da assimilação do conhecimento, enquanto fruto da experiência.

A sabedoria, por sua vez, é a incorporação do conhecimento adquirido, na postura e na direção em que se delibera tudo na vida. É assim que se dá a cura de todo vício humano, creio eu. E esse discernimento é o combustível que mantém acesa e constante, a fé no homem, nas instituições, na minha gente.

Por todo o acima exposto, finalizo decretando:

Eu tenho fé de que a cada dia, apesar dos pesares, o mundo melhora.

Eu tenho fé.

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
(Fernando Birri - Argentino - Cineasta)


João Henrique de Miranda Sá é jornalista, gestor de cadeia de suprimentos, corretor de imóveis, um eterno aprendiz da teoria do amor e entusiasta da raça humana.

*Imagem: Pixabay

João Henrique de Miranda Sá

Jornalista, escritor e redator autônomo