Nenhuma verdade, novecentas mentiras

O que é a mentira? perguntaria um personagem de Shakespeare, possivelmente erguendo uma taça de vinho com veneno. E não responderia. 

Iniciaria um solilóquio, como convém a um personagem shakespeariano – ainda mais se for desses que erguem taças de vinho envenenado, seja para sorver um gole e desabar do trono na cena final, seja para entregá-la ao irmão, logo no primeiro ato.

Mentira é tudo aquilo que contradiz o que penso, o que digo, o que sinto – mesmo quando minto. Ou principalmente quando minto.

A mentira não se opõe à Verdade, mas à minha verdade. E poucas coisas estão mais distantes da Verdade que as verdades de cada um.

É mentira que Lula tenha um sítio na pequena e pacata cidade de Atibaia. Ele passa lá, com a família, os finais de semana – mas há quem passe fins de semana na praia, e nem por isso a praia se torna sua propriedade.

Há quem mande flores e um cartãozinho para agradecer a hospedagem, mas a mulher de Lula preferiu mandar fazer uma obra de um milhão de reais, em agradecimento pelos domingos à beira do lago, com direito a pedalinhos.

É mentira que tenha um apartamento de três pavimentos no Guarujá. Esteve lá, gostou da vista, não gostou do resto, e a empreiteira, por conta própria, mandou reformar tudo, inclusive trocando uma sauna por um depósito porque a primeira dama não queria sauna. Sabe como é, o mercado imobiliário não anda muito aquecido, e estão fazendo tudo pra agradar aos clientes em potencial. Até mesmo obras de R$ 700 mil.

É mentira que tenha pedido uma mesada para o irmão. Se a ex maior empreiteira do país costuma distribuir essas benesses, talvez para purgar os próprios pecados ou para se habilitar junto à Receita Federal como instituição filantrópica, problema dela.

É mentira que tenha solicitado um empurrãozinho na empresa do filho ou um ‘apigreide’ na do sobrinho. É promissor o filão do futebol americano aqui na terra do Dunga, e natural que se convide para parcerias em grandes obras no exterior, com um aporte de 20 milhões, uma empresa sem qualquer experiência no ramo e aberta há poucos meses.

É tudo mentira. 

Que o Rio São Francisco não tenha sido transposto. 

Que tenha havido caixa dois nas campanhas. 

Que se soubesse dos desvios bilionários em estatais. 

Que bilhões tenham sido drenados para ajudar parceiros ideológicos na Venezuela, em Cuba, Equador, El Salvador.

É mentira que alguma nomeação tenha sido tentada para dar a alguém um foro que o livraria do Moro. 

É mentira tudo que arranhe a narrativa mítica do nordestino pobre de mãe analfabeta que etc etc etc

Uma mentira não se mantém de pé se não tiver a seus pés um séquito de outras mentiras, cada uma das quais necessitará (a isso se chama ‘márquetim de rede’) também a sua própria teia de mentiras.

Só na brincadeira virtual é que há muitas verdades e uma única mentira.

Eduardo Afonso

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.