As desventuras do Coronel Fawcett

O espírito de aventura que motivou homens em diversas épocas e regiões rumo às terras até desconhecidas, por certo também atendia a interesses econômicos.  Basta lembrar o papel dos viajantes espanhóis, portugueses e ingleses no avanço do mercantilismo metropolitano europeu em terras do Novo Mundo e em outras terras descobertas no século XVI.  Como é sabido, historicamente, essas terras foram incorporadas à etapa do capitalismo comercial, transformando-as em mercados fornecedores de matérias-primas e consumidores de produtos lucrativos às nações colonialistas.

Mesmo após a partilha dessas terras pelos impérios europeus daquela época, elas continuaram alvos da cobiça de viajantes e aventureiros.  Mais tarde, com o avanço tecnológico no século XIX, as novas relações de poder entre as nações europeias acirraram as disputas pelo antigo espólio colonial.  Aventureiros e expedições que se pretendiam "científicas" passaram a percorrer e a buscar conhecimentos de regiões longínquas, emitindo relatórios e coletando amostras da fauna e flora, das riquezas minerais e de utensílios de populações nativas. 

Era um tempo em que os "impérios" necessitavam de maiores conhecimentos geográficos das regiões periféricas para expandir seus interesses econômicos e de dominação.  Foi também um tempo de grandes aventuras, como as empreendidas por Langsdorff, Burton e Livingston, entre outros.  No rastro dessas aventuras e suas fantásticas histórias insere-se o inglês Percy Harrison Fawcett, morto por índios nas selvas brasileiras em 1925.

A morte desse aventureiro esteve envolta em uma teia de mistérios e controvérsias.  O seu desaparecimento e a busca dos vestígios que confirmassem a sua morte suscitou, por décadas, a imaginação de aventureiros, jornalistas e escritores, tanto brasileiros como estrangeiros. Na onda da valorização do gênero literário da biografia, com grande sucesso editorial e de vendas, foi publicado o livro do jornalista Hermes Leal, “Coronel Fawcett. A verdadeira história do Indiana Jones” (São Paulo: Geração Editorial, 1996, 299 p., fotos).

Baseando-se em extensa bibliografia, em notícias de jornais e em anotações do próprio Fawcett, o autor traçou a trajetória desse aventureiro, desde as suas origens familiares, passando pela vivência na Índia como oficial do exército inglês, onde acentuou o gosto pela pesquisa arqueológica e, finalmente, as suas desventuras nas selvas sul-americanas.

Espírito aventureiro, obstinado em reviver com obsessão as grande glórias e aventuras do século XIX, Fawcett mostrou toda a sua desinformação ao perseguir a miragem de uma cidade perdida no interior do território brasileiro.  A busca deste mito, que ele afirmava ser a "misteriosa Z", demonstrou de forma patética seu grande desconhecimento sobre a região interiorana brasileira, seus costumes e cultura e, em especial, de sua população nativa.  Aliás, seu maior e fatal erro.

Porém, ao escrever sobre uma figura tão contraditória, Hermes Leal enfrentou as armadilhas comuns que se apresentam ao optar pelo gênero biográfico, como por exemplo, emaranhando-se na linha tênue que separa a realidade da ficção.  No entanto, o autor conseguiu superar de forma satisfatória essas dificuldades, apesar de não deixar claro a diferença entre informações originais coletadas e a simples reprodução de documentos e textos já publicados.  Sem fazer proselitismo, buscou traçar um perfil distante e crítico do biografado.  Referindo-se à expedição de 1920, chegou a afirmar que "Fawcett montou a mais louca das expedições, planejada para ser realizada na mais completa irracionalidade, no que se referia às questões de sobrevivência" (p. 104).

Hermes Leal   cometeu pequenos deslizes ao incorporar a visão de quem depõe, esquecendo-se dos riscos que os depoimentos apresentam pela visão impressionista dos fatos.  Nesse sentido, incorre no absurdo de afirmar sobre a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que "Depois de uma semana de solavancos, o trem rumou para Santa Cruz de la Sierra, na Bolivia, deixando os ingleses em Porto Esperança" (p. 161).  Acontece que, por volta de 1925, objeto desta referência, era neste ponto, às margens do rio Paraguai, que a estrada de ferro tinha o seu ponto final.  Somente décadas depois, houve a continuação da estrada para a Bolívia. De fato, ao desembarcar em Porto Esperança, como todo viajante que chegava ao final da ferrovia, pegou um navio, provavelmente o charmoso “Fernandes Vieira”, para desembarcar e descansar em Corumbá. Nesta cidade portuária ficou hospedado no  Hotel Galileu, que abrigou todas as figuras ilustres que passavam pela cidade na época.

A questão mais passível de crítica está no próprio subtítulo "A verdadeira história de Indiana Jones".  A possibilidade de Spielberg ter se inspirado em Fawcett para criar o personagem Indiana Jones não se justifica, com toda a certeza.  À primeira vista, parece ser uma jogada de marketing para a venda do livro, o que é, no mínimo, lamentável e desnecessário, já que o tema abordado por si só é interessante e atraente.

Uma outra questão que também não ajuda o leitor é a falta de referências claras sobre as fontes bibliográficas de apoio, por exemplo, ao referir-se ao diálogo entre o presidente da República Epitácio Pessoa, o marechal Rondon e o próprio Fawcett, fato elucidativo que mostra o lado obscuro da História do Brasil sobre a subserviência das autoridades diante dos interesses e pressões externas. No caso, o presidente Epitácio Pessoa, truculento representante da elite oligárquica que notabilizou seu governo pela repressão e perseguição aos operários, tendo aceitado a pressão do embaixador inglês, financiou a expedição de 1920 e permitiu a sua penetração pelo interior do país sem o acompanhamento de militares brasileiros, que era uma exigência do próprio Rondon.

A expedição de 1920, segundo Hermes Leal, veio confirmar uma faceta obscura da personalidade de Fawcett que, por sua pretensão e orgulho, jamais assumiu sua completa ignorância sobre a região interiorana brasileira, com repercussões negativas em sua popularidade, demonstrada, por exemplo, pela população de Cuiabá.

Contudo, o livro de Hermes Leal, de agradável leitura e interesse para o leitor que gosta do gênero de aventuras e mistério, vem somar com outros autores preocupados, não somente com as peripécias do desastrado aventureiro inglês, como desvendar a misteriosa névoa que envolveu a sua morte e demais membros de sua última expedição, incluindo na tragédia o seu filho. 

Podem ser citados o jornalista Edmar Morel que, na década de 40, fez uma série de reportagens para os Diários Associados e o escritor Antonio Callado que escreveu o livro Esqueleto na Lagoa Verde (Um ensaio sobre a vida e sumiço do Coronel Fawcett. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1953), além dos próprios relatos de Fawcett (FAWCETT, P. H.  A expedição Fawcett. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1954).

Infelizmente o trabalho de Hermes Leal, como todos os outros, não foi conclusivo.  Afinal, a ossada encontrada nas selvas do Xingu era ou não de Fawcett?  A dúvida continua apesar dos relatos indígenas insistirem em sua confirmação.  Com certeza, os novos avanços da tecnologia, através de exames de DNA poderão dar uma resposta definitiva.  

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.