Chico Caruso, um chargista que se transformou em militante

Nojenta a charge de hoje do militante Chico Caruso n'O Globo.

Ele já tinha se colocado de joelhos ao fazer um desenho da finada presidenta de paletozinho vermelho, com as mãos na cabeça exclamando ‘Santa Maria!’ quando do incêndio da boate Kiss.

O foco da charge não era o horror da tragédia, mas a pretensa solidariedade da madame.


Depois chegou ao fundo do poço com a do Fidel Castro, em uniforme militar, deixando escapar uma furtiva lágrima pelo acidente da Chapecoense. O foco da charge não era, mais uma vez, a dor da tragédia, mas a pretensa humanidade post mortem do comandante.


Dilma se abalou pelas chamas em Santa Maria tanto quanto por Mariana sob a lama. E está para nascer quem vá explicar a relação do Comandante com a pane seca do avião da Lamia.

Hoje o cartunista extrapolou de vez a militância: desenhou o delator Renato Duque com nariz de Pinóquio - como se fosse ele o Mentiroso em Chefe, o Amigo, o Barba, o Brahma, o Nine.


"Charge" é uma crítica, um desnudamento. Tem que ser radical, não fundamentalista. Tem que ir ao cerne do fato, não distorcê-lo para que ele se encaixe numa narrativa preconcebida.

Renato Duque mentiu?

Marcelo Odebrecht mentiu?

Emílio Odebrecht mentiu?

Alberto Youssef mentiu?

Paulo Roberto mentiu?

Alexandrino Alencar mentiu?

Delcídio do Amaral mentiu?

Pedro Barusco mentiu?

Ricardo Pessoa mentiu?

Os 77 executivos da Odebrecht mentiram?

Palocci também mentirá, se delatar?

Que tal uma charge com uma centena de "mentirosos", de nariz de Pinóquio, apontando o dedo para a alma mais honesta e mais inocente deste país?

Uma charge como a de hoje ficaria bem melhor em panfletos patrocinados tipo Carta Capital, jornalzinho da CUT ou de algum DCE de Ciências Sociais, daqueles que botam bigodinho nazista no Moro.

Pensando bem, é melhor não dar ideia pro Chico Caruso. Vai que ele ainda não sabe o que desenhar na quarta-feira, 10 de maio.

Eduardo Affonso

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.