Geraldo Azevedo: Resistência da cultura Brasileira

“Ia de jegue para o grupo  escolar. Ele ficava lá esperando e eu voltava ao meio-dia, cochilando  em cima dele.”


“Fui  preso e torturado duas vezes. Fui preso no governo Costa e Silva,  durante 41 dias. Fui muito torturado.”


“Eu  fiquei 19 dias na solitária. Até que um dia, resolveram me dar um  violão para ver se eu realmente tocava.”


“A música brasileira tem uma qualidade fantástica, que pode te levar para qualquer  lugar do mundo.”


“A minha relação com o rio São Francisco é tão forte que  a preocupação é com as mudanças que acontecem no rio,  devido à exploração e à falta de cuidado ao mesmo tempo, com açudes,  represas, o assoreamento, que faz com que a areia desça para dentro do  rio.” 


Pernanbucano de Petrolina, nascido às margens do Rio São Francisco, ou do Velho Chico, depende  da preferência do freguês,  em 1945.

Músico autodidata, aos 12 anos já  tocava violão. Em 1963, já em Recife, juntou-se a um grupo folclórico intitulado “Construção”, onde encontrou  pela primeira vez  Teca Calazans e Naná Vasconcelos. 

Veio para o Rio de Janeiro como músico de Eliana Pittman, no final da década de 1960,  onde  se tornou conhecido  como compositor e  instrumentista versátil.

Na Cidade Maravilhosa, reencontrou Naná Vasconcelos e juntaram-se a Nelson Ângelo e Franklin para formar o Quarteto Livre, grupo que acompanhou Geraldo Vandré, até que os problemas com a ditadura militar fizeram com que Vandré deixasse o país.

Parceiro de Alceu Valença,  teve seu primeiro contrato com a gravadora Copacabana, depois de  atuação espetacular ao lado de um dos músicos que mais o influenciou, o mito Jackson do Pandeiro, em 1975, no Festival Internacional da Canção.

Entre a repressão da ditadura e o sucesso como compositor e cantor, Geraldo Azevedo lançou um disco com Alceu, fez a  trilha sonora do filme “A Noite do Espantalho”, de Sérgio Ricardo, e algumas de suas canções apareceram em  novelas de TV, como “Gabriela” e “Saramandaia”, ambas de enorme audiência em todo o Brasil e que ajudaram a divulgar seu nome como um  promissor talento.

Lançou em 1979, pela CBS, “Bicho de Sete Cabeças”, com um trabalho mais maduro: “Táxi Lunar” e “Bicho de Sete Cabeças” estão entre as suas melhores canções e são invariavelmente incluídas em suas apresentações ao vivo.

São 22 discos lançados, sozinho e com parceiros, até hoje. Atualmente está lançando o CD e DVD “Salve São Francisco”, um projeto idealizado por Geraldo Azevedo, que conta com as participações especiais de alguns dos mais talentosos artistas produzidos no país, como Dominguinhos,  Alceu Valença, Maria Bethânia, Ivete Sangalo, Djavan, Moraes Moreira,  Fernanda Takai, Roberto Mendes, Geraldo Amaral, Vavá Cunha e Márcia  Porto.

A produção musical ficou a cargo de Robertinho de Recife, a produção executiva é de Gabriela Azevedo e a direção de Lara Velho.

Todas as suas faixas celebram a beleza e importância do rio São Francisco.

   
Você nasceu às margens mesmo do Rio São Francisco ou isso é só maneira de dizer?
Não.  Nasci sim. Na beirinha mesmo. E até os 13 anos, eu só tomava banho  nele, não conheci chuveiro. Eu nasci em Petrolina, mas não morava na  cidade. Fui criado na roça, em um lugar chamado Jatobá. Fui para cidade  aos 13 anos, quando comecei a cursar o ginásio. Ia de jegue para o grupo  escolar. Ele ficava lá esperando e eu voltava ao meio-dia, cochilando  em cima dele.
 
E como era morar às margens do Velho Chico?
Tinham as enchentes no Rio São Francisco, onde tem os açudes. A gente não pode morar muito próximo ao rio por causa das cheias. A casa da minha mãe era mais próxima ao São Francisco,  mas quando ela tinha um ano de idade, as águas alcançaram a casa e tiveram que fazer outra mais longe. Para mim, era muito lindo,  romântico, aquela roça que a gente plantava, àquelas árvores e meu pai  dizia que não podíamos pegar nenhuma folha, porque as cobras, durante as  enchentes, subiam nas árvores.
 
O que seu pai fazia?
Meu  pai era carpinteiro, lavrador, ele fazia tudo que era de madeira,  construção, era meio curioso, sabe? Ele fazia cama, cadeira de casa, até  o meu primeiro violão foi ele que fez. Ele fazia até caixão.
 
E como foi na época da ditadura? Você chegou a ser preso?
Fui  preso e torturado duas vezes. Fui preso no governo Costa e Silva,  durante 41 dias. Fui muito torturado. Eu e minha esposa, mãe da  Gabriela, minha primeira filha. A segunda vez já foi no governo de  Geisel, onde eu fiquei menos tempo em cárcere.
 
Ficou algum trauma?
Sim,  inclusive tenho alguns traumas físicos causados pelas torturas. Fui  preso no dia 07 de setembro. Minha filha tinha uns três anos. Eu vinha  de um passeio com minha filha, Gabriela e um amigo da mesma idade dela,  no Rio de Janeiro, e , de repente, algumas pessoas me cercaram. Fui  dominado no meio da rua, as crianças correndo na frente. A sorte é que  já estávamos  próximos da vila onde eu morava. Mas eles me pegaram e me  encapuzaram, colocaram dentro de um fusca e foram pisando em cima de  mim. Quando vi, eu estava em um lugar escuro e eles começaram com as torturas antes de perguntar qualquer coisa. Na cela ao lado, estava o  cunhado do Henfil, que eu vim a conhecer depois. E em uma outra, estava  um cara chamado Armando Frutuoso, que veio a falecer em decorrência das  torutras sofridas. Eu fui testemunha auditiva da morte do Armando. Eu  fui preso duas vezes e não fui processado. Era apenas uma violência  gratuita. E na segunda prisão, eu fui confundido com outra pessoa por  causa da semelhança física. Até eu provar que não era um tal de Valério,  eu sofri muita violência. Eu tinha até vergonha de contar. Além da  tortura, a gente passa por muita humilhação. No período em que fiquei preso, eles descobriram quem eu realmente era. Eu estava com uma música  na novela Gabriela, uma composição minha com o Alceu Valença. Então, na  hora da novela, eles pediam para eu cantar a música, com o capuz na  cabeça e pelado, e depois dançar também.
 
E como você saiu de lá?
Eu  fiquei 19 dias na solitária. Até que um dia, resolveram me dar um  violão para ver se eu realmente tocava. Aí mudou a minha vida. Eles  ficaram muito encantados, me pediram para cantar Yesterday, chamaram os  outros oficiais e o que era interrogatório virou quase um show. Depois,  eu voltei para a solitária, mas no dia seguinte, já estava em uma cela  comum. No entanto, vieram me pedir para eu cantar no aniversário do  comandante e eu me neguei. Disse que só cantaria se estivesse livre.  Enfim, o bom é que o comandante fez a festa em casa e eu não precisei cantar para ele. Depois fui solto. Mas foi um período bem complicado. Tinha pensamentos ruins. É muita humilhação que a gente passa em uma  situação dessas.
 
Qual o segredo da sua trajetória?
Insistência,  resistência da cultura brasileira que é muito forte. A música brasileira tem uma qualidade fantástica, que pode te levar para qualquer  lugar do mundo. O povo brasileiro sente um pouco de falta da música  brasileira. A mídia, hoje em dia, oferece coisas muito descartáveis, que  não têm muito conteúdo, que o público procura buscar através de  artistas como eu.
 
Que tipo de música influenciou você?
Sou  apaixonado pela música brasileira de maneira geral, principalmente a  nordestina. Eu adoro maracatu, baião, côco, ciranda. Eu gosto da  diversidade que o Brasil e o Nordeste têm. Mas a bossa nova foi o que  realmente me incentivou a me tornar um músico. Comecei a pesquisar os  acordes, as harmonias diferentes. João GIlberto foi um cara que me  influenciou muito, mas depois veio uma gama de outros artistas, como  Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Caymmi, Tom Jobim e principalmente Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.
 
E como surgiu o Salve São Francisco?
O “Salve São Francisco”  tem 12 canções, sendo quatro regravações, com participações de artistas de estados banhados pelo Velho Chico, como  o alagoano Djavan e a mineira Fernanda Takai; Moraes Moreira, Roberto  Mendes, Ivete Sangalo, Maria Bethânia e Vavá Cunha, da Bahia; de  Pernambuco, além de mim, participam Dominguinhos, Geraldo Amaral e Alceu  Valença.
É  o meu primeiro trabalho temático. Sempre faço discos, composições que  me acompanham ao longo da carreira, mas esse é o primeiro que foi  específico: Salve
São Francisco.  Eu convivi com esse rio de uma maneira muito íntima, vamos dizer assim.  Até os 18 anos de idade, eu só tomava banho nesse rio. Eu não tomava  banho de chuveiro. Eu nasci na roça. Com 13 anos, eu fui para cidade.  Então, lá na roça, a gente convivia com tudo do São Francisco. Meu pai  tinha uma roça, onde plantava mandioca, macaxeira, milho e feijão e  tinha muitas coisas também, mangueira, tamarineiro, etc ....
O Velho Chico foi o meu esteio da relação com a natureza. É como se fosse uma veia que passa pelo meu coração. A minha relação com o rio São Francisco é tão forte que  a preocupação é com as mudanças que acontecem no rio,  devido à exploração e à falta de cuidado ao mesmo tempo, com açudes,  represas, o assoreamento, que faz com que a areia desça para dentro do  rio. O Velho Chico vai  sendo invadido e desmatado. Eu vi o leito do Rio baixando cada vez  mais. E eu já assisti muita enchente daquele Rio, onde o sertão virava  mar. Minha preocupação fez com que eu pensasse numa temática assim, de  cantar o São Francisco para chamar a atenção para essas coisas que vêm  acontecendo.