Câmara dos Deputados: o manicômio representativo

Hoje, segunda-feira, 18, é um dia em que pretendia acordar feliz. Ontem, domingo, 17, foi um dia em que deveria ter colocado a cabeça no travesseiro, feliz. Finalmente, após anos de usurpação das empresas estatais, cegueira seletiva e ingenuidade pública, o governo de Dilma Rousseff fora praticamente derrubado. Deveria acordar feliz. Deveria ter dormido feliz.

Durante pelo menos os últimos quatro anos fiz oposição ferrenha ao desgoverno Dilma. Por que, então, não experiencio essa felicidade? Por que, hoje, não pude acordar com um sorriso na cara e um sentimento de que as coisas encaminhavam-se rumo a alguma melhoria? Sim, o peso às costas parece ter diminuído com a derrubada iminente do bolivarianismo, mas a esperança, citada por diversos deputados em seus discursos, não se fez presente para mim.

Acompanhei a votação do processo de impeachment na integra, ouvindo todos os deputados. Durante a votação, não foram felicidade e esperança que foram tomando conta de mim, mas vergonha. Vergonha em confirmar o que há muito suspeitava: as vidas de mais de 200 milhões de brasileiros encontram-se nas mãos de meio milhar de pessoas desprovidas de qualquer noção do ridículo, do regimento parlamentar e de bom senso.

Praticamente a totalidade dos votantes demonstrou absolutamente não ter ciência daquilo que se passava e que estavam postos a julgar. Triste, ainda mais, foi ver que tamanha irresponsabilidade e desorientação refletiu-se na população. Era ínfimo, tanto na Câmara dos Deputados, quanto nas manifestações pró e contra o governo, o número de pessoas que estavam cientes de que tudo que se estava votando ali era a admissão do processo de impeachment, sem qualquer juízo de culpabilidade ou garantia de concretização do mesmo.

Em uma nação civilizada, dois discursos seriam predominantes no palanque:

Ao julgar as evidências apresentadas durantes as 11 reuniões e mais de 50 horas de discussão, parece-me haver a necessidade da presidente ser submetida a julgamento, considerando que pode ter cometido crime de responsabilidade. Meu voto é sim.

Ao julgar as evidências apresentadas durantes as 11 reuniões e mais de 50 horas de discussão, parece-me não haver a necessidade da presidente ser submetida a julgamento, considerando que não há evidências de crime de responsabilidade. Meu voto é não.

Infelizmente, o que se seguiu na selva brasilis ficou muito aquém de qualquer expectativa de civilidade. Os deputados de todas as vertentes conseguiram fazer aqueles que ainda tem interesse por uma república sentir vergonha alheia e perguntar-se até mesmo se o anarquismo não seria uma solução melhor a sustentar 513 parlamentares desprovidos de vergonha na cara. O plenário foi transformado em uma versão institucionalizada do programa da Xuxa: “Um beijo pro pai, pra mãe e especialmente pra você.” Mas o nível cairia. Cada um dos deputados julgando-se o arauto da representatividade popular, o único Verdadeiro defensor da Democracia (com V e D maiúsculos), um por um, fizeram a inteligência ser varrida para fora da casa. Desconsiderando por completo a sua função, fizeram do púlpito um palanque para panfletagem de ideias pútridas.

Particularmente, a família Bolsonaro decepcionou. Como já foi colocado por sites como o Spotniks: com tudo que poderia ser colocado para derrubar de vez o governo Dilma e o PT, e considerando o assassinato de reputações promovido anos a fio pela esquerda, Eduardo Bolsonaro resolveu saudar os militares de 1964. Jair, não contente em saudar a ditadura, teve de saudar torturadores. Atitude infantil e prejudicial não só a eles, mas a todo o movimento não esquerdista do Brasil, comumente vinculado. Os Bolsonaro vinham pouco a pouco conquistando respeito e demonstrando mudanças ideológicas importantes. Caminhavam, pelo menos para mim, para uma candidatura importante e interessante em 2018. É lamentável, e meus amigos conservadores que me perdoem, mas depois dos discursos de ontem, os jogarei no mesmo pacote em que joguei Marina Silva: o pacote das pessoas que defenderam porcarias por tempo demais e que só serão capazes de mudar, da boca pra fora, para chegar ao poder. Os Bolsonaro estão decididos a não vencer uma eleição pelo povo, mas a simplesmente mostrar que estão “certos”. Mais do que nunca, fizeram um desfavor a oposição. E, mais uma vez, meus amigos que me perdoem, mas não lhe falta unicamente uma acessoria que o oriente, lhe falta bom senso.

Do outro lado, a turma do PSOL se destacou com a esquizofrenia e a completa falta de vergonha na cara. Se de um lado torturadores eram defendidos, do outro, o eram terroristas stalinistas e assassinos, como Marighella e Prestes. Após isso, o deputado Ivan Valente provou que precisa de medicação. Falou sobre a “fraude que deveria ser evitada, pois é uma armação para sacrificar os trabalhadores”. Tal fraude era a posse de Temer. O senhor Ivan Valente esquece que apoiou a chapa de Temer nas eleições e durante todo o período em que o PMDB esteve na base do governo. Mas tudo bem, ninguém precisa ser amigo depois de brigar… Nem entrarei na questão de Jean Wyllys. Àquela altura, o decoro havia deixado o recinto há tempos.

A turma do PT e do PDT continuava fazendo o que os comunistas fazem melhor: desinformando. “bla bla bla, democraticamente, bla blabla, golpe”. Insistiram na inconstitucionalidade do ocorrido, sem explicar exatamente onde estava a inconstitucionalidade em pedir que uma presidente seja julgada após passar por todo o devido processo legal. Se o senado a julgar de forma errônea, então, ótimo! Nesse momento você discursa sobre a inconstitucionalidade do impeachment. Aqui, ficou claro que a bancada vermelha não fazia a menor ideia do que estava fazendo no plenário; consideravam-se em posição de emitir julgamentos de inocência em uma tarefa em que tal atitude não cabia. Continuam acreditando que democracia é uma coisa que se faz em um dia a cada quatro anos e que o que se passa nesse dia lhes dá o direito de dilacerar impunemente, acima das leis, toda uma nação. É claro, fizeram o seu papel de mendigos estatólatras, nada mais.

Saindo dos extremos, não há muito o que salvar também. A Câmara estava dividida em jumentos de direita, asnos de esquerda e mulas oportunistas. Discursos bostas (não há outra palavra) e nenhuma informação de relevância: “bla bla bla bla, meus eleitores, bla bla bla, minha cidade natal” e nada sobre o processo de impeachment.

Por fim, apesar do resultado positivo, o sentimento que se instaurou profundamente em mim foi o de completo desrespeito dos congressistas pelos seus eleitores. Mais de 500 insultos às inteligências dos cidadãos e nenhum motivo para acreditar que depois de Dilma, apenas Cunha e Temer devam ser afastados: a Câmara dos Deputados inteira deve ser substituída. O nível está baixo demais e está na hora de o Brasil abandonar os pelegos idealistas, saudosos das ditaduras - tanto de esquerda quanto de direita -, ater-se aos procedimentos legais, abandonar as demagogias e olhar para o futuro.

É claro que abro margem, aqui, para ser acusado de “isentão”, ou de ser tão ideólogo quanto aqueles que critico, por almejar uma Câmara dos Deputados idealizada e “utópica”. Então devo fazer uma colocação: passo o mais longe possível de um revolucionário que quer a cassação imediata de todos os deputados. Sou jovem mas não sou ingênuo para ficar trabalhando com ideias bestas como essa, mas simplesmente deixo aqui um apelo para as próximas eleições: façamos o nível dos que nos representam condizer com os nossos níveis intelectuais.








Matheus Dal'Pizzol

Palpites sobre o oblívio das virtudes